PELENEGRA

Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Documentário Sobre Estética e Cabelos Afros: "Espelho, Espelho Meu"




Enviado em 28/10/2011
Por Adriele Moreno

"Através de depoimentos, o documentário "Espelho, Espelho Meu", produzido por Elton Martins, aborda representações afro-estéticas no período juvenil. Mães, crianças e adolescentes: todos falam um pouco de suas experiências com os seus cabelos e sobre suas escolhas pessoais. Além disso, o vídeo conta com a participação do historiador Antônio Cosme que norteia o tema ao destrinchar o processo de construção de identidade.

O historiador fala, também, que a realidade é quase o oposto do que deveria ser. Ele explica as expressões identitárias atuais e as define como consequências da alteridade, da relação étnica-racial brasileira.

Depoimentos de adultos (homens e mulheres), adolescentes e crianças são usados no documentário como confirmações do que fala o historiador.

O vídeo tem logo na introdução uma mulher negra se produzindo em frente ao espelho, com música de fundo. Em seguida, Antônio Cosme abre o documentário com o primeiro depoimento. A fotografia faz jus a temática: apresenta pessoas que usam cabelo no estilo "black power" ou com trança enfeitadas, por exemplo, em contraponto a cultura reinante do cabelo liso. Músicas também são inclusas: algumas instrumentais e outras cujas letras coincidem com o assunto do doc."

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Carta de uma mãe a uma escola branca, onde estuda sua filha negra de 4 anos

Fonte: digiartesgraficas

CARTA DE UMA MÃE A UMA ESCOLA BRANCA, ONDE ESTUDA SUA FILHA NEGRA DE QUATRO ANOS
Recife, 05 de maio de 2014.
Prezadas professoras, coordenação da escola e quem mais fizer parte da educação de meus filhos:
Minha filha (Infantil III - Manhã) foi vítima hoje de bulling racista na escola. Vou contar desde o início.
Ao tentarmos fazer a tarefa que pedia para procurar em revistas uma família que se parecesse com a nossa, obviamente, não encontramos, pois nossa mídia acredita que só existem pessoas brancas e de cabelos lisos no Brasil. Pedi, então, para ela desenhar nossa família. Como pode ver no desenho, ela se pintou de "menina branca".
Como trabalhamos muito em casa as questões raciais, até porque meus filhos são filhos de um homem negro, e como minha filha tem o fenótipo de "mulata" (termo que, inclusive, não deve ser usado, por ser derivado de "mula" e expressa fortemente um racismo colonial), questionei porque ela se pintou daquela cor, já que ela é NEGRA (trabalho muito com ela o emponderamento racial). Ela começou a chorar e dizer que não queria ser "daquela cor", que queria "ser branca" e que, quando crescesse, iria colocar pó de arroz para ficar branca.
Tentei ir puxando mais sobre o assunto, sempre dizendo que ela é linda do jeito que é, vangloriando sua beleza (como fazemos sempre aqui), e ela foi soltando mais. Disse: "mas é que não tem ninguém da minha sala com 'esta cor'", "eu não gosto" e "um amigo meu me disse que eu sou feia". Coloquei-a em frente ao espelho e perguntei quem ela via ali. Ela disse: "EU!", e eu perguntei se ela se achava feia mesmo, olhando no espelho. Ela disse que não.
Perguntei, momentos depois, quem foi o amigo que disse que ela era feia, ela respondeu "João", e eu perguntei como ele disse isso. A resposta me fez chorar: "Ele disse que eu sou feia porque eu sou negra".
Queridos, isto é um assunto MUITO sério e que precisa ser tratado com URGÊNCIA dentro de sala de aula. Sugiro que, de imediato, aproveitem o mote da tarefa para fazer isso, para trabalhar como as crianças estão se enxergando, porque isto é fundamental na auto aceitação e na aceitação das diferenças como um todo.
Falo isso porque, apesar de ser branca, sei o que é o racismo velado do Brasil. E ele ACABA com a autoestima das crianças, inclusive de meninas bem resolvidas como minha filha é. Há menos de 15 dias, meu marido levou surra da PM, de graça. Ele é negro, estava de bicicleta e passando próximo a uma comunidade carente. Quem quiser que tente nos convencer de que esta violência "não tem nada a ver com a cor da pele", porque NÓS SABEMOS que tem.
Sexta-feira tem reunião na escola sobre minha filha, e este será o principal tema, depois do que aconteceu. Acho que este é um problema muito mais grave do que qualquer outro que queiram me falar.
Precisamos agir em conjunto. Quero tentar um encontro de pais e mães (porque acredito que esta criança apenas repetiu o que ouviu em casa, já que o tema 'racismo' está na mídia em função da péssima campanha 'Somos Todos Macacos'). O racismo velado está, finalmente, aflorando. E minha filha foi vítima dele.
Precisamos inserir temáticas raciais e sociais com mais força dentro de uma "escola de brancos". Caso contrário, esta praga social nunca deixará de violentar crianças como a minha filha. Tenho várias sugestões de atuação sobre o tema, livros para se abordar o tema em sala de aula, até uma aula PRONTA, utilizando o livro "Menina Bonita do Laço de Fita", esta aula está disponível no Portal Geledés Instituto da Mulher Negra.
Conheço ativistas do movimento negro, com quem poderia falar para se pensar em uma palestra para pais e mães. Porque é fácil se dizer 'não racista' sendo branco, mas sem fazer ideia do que as pessoas negras sofrem no Brasil, principalmente se elas, como a minha filha, são minoria dentro de um contexto específico, como é o da escola dela. É difícil ser 'diferente' em um ambiente preconceituoso (as crianças trazem os preconceitos de dentro de suas casas), portanto, acho FUNDAMENTAL que se trabalhem DE VERDADE estes preconceitos.
A dor da minha filha é minha dor também. A semente do racismo foi plantada dentro de minha família, de forma bem triste, nos últimos dias. Espero que, com a ajuda da escola, consigamos fazer com que ela não germine, e que minha filha e outras crianças negras não sofram nunca mais com este tipo de semente, que pode destruir a identidade de uma pessoa. Porque, como disse uma amiga minha, negra, "esta ferida plantada na infância não sara nunca".
Agradeço a atenção.
Patrícia.

sábado, 24 de maio de 2014

Por que a Copa de 2014 não empolga?

Por Sergio J Dias

Por que a Copa de 2014 não empolga?
Primeiro, tiraram nossos campos de várzea e os transformaram em condomínios. Há algumas décadas, um dos espaços mais agradáveis de acolhimento e encontro das cidades tem sido alvo do interesse de empreiteiras. Os jovens de diversas comunidades pobres encontravam-se nestes locais, faziam amizades, selavam pactos, expressavam sua agressividade, marcavam jogos, jogavam torneios e campeonatos. Hoje, estes mesmos jovens estão encarcerados em favelas, distantes do olhar do outro e vendo-o como inimigo. Quantas querelas comunitárias foram resolvidas nos limites da várzea? Há nas favelas, atualmente, pequenas quadras, geralmente, em seu ponto mais alto, enfatizando o isolamento e engolindo a sociabilidade.
Por outro lado, os governos pressionados pelo galopante êxodo rural, pela consequente urbanização e pela insignificante reforma agrária, se renderam. A urbanização descontrolada nos expôs ao caos. Restam os “campinhos de society”, minúsculos e caríssimos para serem alugados. Hoje, é comum vê-los locados à empresários de futebol que esperam encontrar craques, cada vez mais raros, em suas “escolinhas”.

Por que a Copa de 2014 não empolga?
Em seguida, vemos o extermínio de nossos craques, morrem aos montes, como baratas, anualmente e violentamente. Perdemos, não só, nossos brilhantes do futebol, mas, milhares de potenciais médicos, engenheiros, professores e trabalhadores, em geral. Sentimos um forte cheiro de  girassóis, palmas ou estrelitzia no ar. Encontramos almas desafetas em nossas caminhadas. A violência escalda nossos corpos, atravessa nossas mentes e compõe um quadro dantesco de indigentes e desaparecidos. Não há no mundo lugar onde a distopia esteja tão em voga. O desespero, por tantas mortes, clama à Olorum por uma solução. Talvez, nosso Deus supremo posso interceder junto aos homens para estancar esta sangria desatada.
Quem será o novo Didi, “o homem da folha seca”, o novo Zico, “o galinho de Quintino”, o novo Leônidas, “o diamante negro”, o novo Pelé, “o craque do século”?
Quase todos se foram!

Por que a Copa de 2014 não empolga?
Em terceiro lugar, cortaram nosso último contato próximo com o futebol, cobrando ingressos a preços absurdos e doando-os às empreiteiras.
O que fizeram ao Maracanã? O que é aquilo? Sua aparência é de um estádio qualquer  europeu. Onde está “o maior estádio do mundo”? Por enquanto a antiga mística ainda faz olhos para quem o vê, porém não é mais o nosso Coliseu, que os italianos insistem em manter original há séculos. Os gladiadores se foram, contudo a arquitetura e a utopia de seus construtores permanecem. Os pobres dali foram expulsos. A geral, parque de delícias de trabalhadores pobres esgueirados à beira do fosso não existe mais. Os ingressos estão pela hora da morte. Assim como a várzea, o Maracanã tornou-se um sonho impossível para a plebe carioca. Contamos então com as tv's de tela plana e preta, esperando reproduzir através de tamanhos incomensuráveis o clima dos estádios de futebol. Algumas marcas chegaram a criar o modo “futebol”, como se fosse possível plasmar a energia contagiante de um clássico.
Outrossim, as empreiteiras, donas de milhares de quilômetros de nossas cidades, se apossaram de nossos templos esportivos e esperam lucrar exponencialmente, pouco se importam com o esporte em si e com o público, a acumulação é o fim de tudo.
Aqui consolidamos alguns aspectos atinentes ao futebol que exprimem a trajetória de seu distanciamento do povo brasileiro. Enfim, enquanto a grande mídia nos definia como o “país do futebol”, o esporte bretão se afastava cada vez mais de todos nós.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Religiões Afro-Brasileiras: uma questão filosófica, de Ney Lopes e Um Apelo à Tolerância, de John Locke

Aduzo ao texto de Ney Lopes, os primeiros parágrafos de "Carta Acerca da Tolerância" de John Locke, grande pensador inglês do século XVII/XVIII e um dos pais da moderna ciência do direito, que discursa acerca da necessidade da tolerância religiosa nas relações entre os indivíduos e entre estes e o Estado. Assim assevera Locke:

"Prezado Senhor:
Desde que pergunta minha opinião acerca da mútua tolerância entre os cristãos, respondo-lhe, com brevidade, que a considero como o sinal principal e distintivo de uma verdadeira igreja.
Porquanto, seja o que for que certas pessoas alardeiem da antiguidade de lugares e de nomes, ou do esplendor de seu ritual; outras, da reforma de sua doutrina, e todas da ortodoxia de sua fé (pois toda a gente é ortodoxa para si mesma); tais alegações, e outras semelhantes, revelam mais propriamente a luta de homens para alcançar o poder e o domínio do que sinais da igreja de Cristo. Se um homem possui todas aquelas coisas, mas se lhe faltar caridade, brandura e boa vontade para com todos os homens, mesmo para com os que não forem cristãos, ele não corresponde ao que é um cristão. "Os reis dos gentios exercem domínio sobre eles ", disse nosso Salvador aos seus discípulos, "mas vós assim não sereis "(Lucas, 22, 25). O papel da verdadeira religião consiste em algo completamente diverso. Não se instituiu em vista da pompa exterior, nem a favor do domínio eclesiástico e nem para se exercitar através da força, mas para regular a vida dos homens segundo a virtude e a piedade. Quem quer que se aliste sob a bandeira de Cristo deve, antes de tudo, combater seus próprios vícios, seu próprio orgulho e luxúria; por outro lado, sem santidade da vida, pureza de conduta, benignidade e brandura do espírito, será em vão que almejará a denominação de cristão. "Tu, quando te converteres, revigora teus irmãos"; disse nosso
Senhor a Pedro (Lucas, 22, 32)."

Mais adiante acrescenta, o autor:

"Se alguém pretender fazer com que uma alma, cuja salvação deseja de todo o coração, sofra em tormentos, mesmo que ainda não se tenha convertido, confesso que isso não apenas me surpreenderia, como também a outrem. Ninguém, certamente, acreditará que tal atitude tenha nascido do amor, da boa vontade e da caridade Se os homens são submetidos a ferro e fogo a professar certas doutrinas, e forçados a adotar certa forma de culto exterior, mas sem se levar em consideração seus costumes; se alguém tentar converter os de fé contrária, obrigando-os a cultuar coisas nas quais não acreditam, e permitindo-lhes fazer coisas que o Evangelho não permite aos cristãos, e que nenhum crente permite a si mesmo, não duvido que apenas visa reunir numa assembléia numerosa outros adeptos de seu culto; mas quem acreditará que ele visa instituir uma igreja cristã? Não é, portanto, de se admirar que os homens - não importa o que pretendem - lancem mão de armas que não fazem parte de uma campanha cristã, quando não intencionam promover o avanço da verdadeira religião e da Igreja de Cristo. Se, como o Comandante de nossa salvação, desejassem sinceramente a salvação das almas, deveriam caminhar nos seus passos e seguir o perfeito exemplo do Príncipe da Paz, que enviou seus discípulos para converter nações e agrupá-las sob sua Igreja, desarmados da espada ou da força, mas providos das lições do Evangelho, da mensagem de paz e da santidade exemplar de suas condutas. Se_os infiéis tivessem que se converter mediante a força das armas, e se o cego-e,o obstinado tivessem que ser lembrados de seus erros por soldados armados, seria mais fácil que Ele o fizesse pelo uso do exército das legiões celestiais, do que por qualquer protetor da Igreja, não obstante poderoso, mediante seus dragões.
A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o Evangelho e com a razão que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara. Não condenarei aqui o orgulho e a ambição de uns, a paixão a impiedade e o zelo descaridoso de outros. Estes defeitos não podem, talvez, ser erradicados dos assuntos humanos, embora sejam tais que ninguém gostaria que lhe fosse abertamente atribuídos; pois, quando alguém se encontra seduzido por eles, tenta arduamente despertar elogios ao disfarçá-los sob cores ilusórias. Mas que uns não podem camuflar sua perseguição e crueldade não cristãs com o pretexto de zelar pela comunidade e pela obediência às leis; e que outros, em nome da religião, não devem solicitar permissão  a sua imoralidade e impunidade de seus delitos; numa palavra, ninguém pode impor-se a si mesmo ou aos outros, quer como obediente súdito de seu príncipe, quer como sincero venerador de Deus: considero isso necessário sobretudo pra distinguir entre as funções do governo civil e da religião, e para demarcar as verdadeiras fronteiras entre a Igreja e a comunidade. Se isso não for feito, não se pode pôr um fim às controvérsias entre os que realmente têm, ou pretendem ter, um profundo interesse pela salvação as almas de um lado, e, por outro, pela segurança da comunidade."



O juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, rejeitou a retirada da internet de 15 vídeos contra o candomblé e a umbanda, alegando que os cultos afro-brasileiros “não constituem religião”, pois não se baseiam em apenas um livro nem têm apenas um Deus. Os vídeos foram postados por representantes de igrejas evangélicas. No artigo abaixo, o escritor Nei Lopes explica os fundamentos dos cultos de origem africana e seu caráter religioso.
Ritual de iniciação das filhas-de-santo. Bahia, Brasil, 1951. Fotografia de José Medeiros/Acervo IMS
Ritual de iniciação das filhas-de-santo. Bahia, Brasil, 1951. Fotografia de José Medeiros/Acervo IMS

Em junho de 1993, a Suprema Corte dos Estados Unidos garantiu aos praticantes de cultos de origem africana o direito de sacrificar animais em suas cerimônias religiosas. Esse relevante fato histórico deveu-se, certamente, à articulação das casas de culto de origem cubana estabelecidas no país a partir da década de 1950, as quais na década de 1970 já tinham, entre si, a Church of The Lukumi Babalu Ayé, a qual se propunha, quando de sua fundação, a ter sede, escola, centro cultural e museu, para sua comunidade e público em geral. Na contramão de conquistas como essa, no Brasil atual chega-se a negar aos cultos afro-originados até mesmo a condição de religiões.
Filosofia. Em 1949 era publicado em Paris o livro La philosophie bantoue, obra em que o padre Placide Tempels dava a conhecer o resultado de suas pesquisas de campo realizadas no então Congo Belga. Contrariando toda uma concepção preconceituosamente negativa a respeito do pensamento dos povos africanos, o livro revelava a existência, entre os pesquisados, de uma filosofia baseada na hierarquia das forças vitais do Universo, a partir de uma Força Superior. Assim, quanto aos seres humanos, aprendia o missionário, entre outros postulados, que todo ser humano constitui um elo vivo na cadeia das forças vitais: um elo ativo e passivo, ligado em cima aos elos de sua linhagem ascendente e sustentando, abaixo de si, a linhagem de sua descendência. Consoante esses princípios, todos os seres, vivos ou mortos, se inter-relacionam e influenciam. E a influência da ação de forças tendentes a diminuir a energia vital se neutraliza através de práticas que façam interagir harmonicamente todas as forças criadas e postas à disposição do homem pelaForça Suprema.
Meio século depois, outro missionário, o padre espanhol Raúl Ruiz Altuna, pesquisando a partir de Angola, conseguia estabelecer outra hierarquia, traduzida nos seguintes ensinamentos:
Força Suprema reconhecida pelo pensamento africano corresponde ao Ser Supremodas religiões monoteístas. Criador do universo e fonte da vida, esse Ser infunde respeito e temor. Mas é tão infinitamente superior e distante que não é cultuado, ou seja: não pode nem precisa ser agradado com preces nem oferendas. Abaixo desse Ser situam-se, no sistema, seres imateriais livres e dotados de inteligência, os quais podem ser gênios ou espíritos.
Os gênios são seres sem forma humana, protetores e guardiões de indivíduos, comunidades e lugares, podendo temporariamente habitar nos lugares e comunidades que guardam, e também no corpo das pessoas que protegem. Já os espíritos são almas de pessoas que tiveram vida terrena e, por isso, são imaginados com forma humana. Podem ser almas de antigos chefes e heróis, ancestrais ilustres e remotos da comunidade, ou antepassados próximos de uma família.
Ao contrário do Ser Supremo, gênios e espíritos precisam ser cultuados, para que, felizes e satisfeitos, garantam aos vivos saúde, paz, estabilidade e desenvolvimento. Pois é deles, também, a incumbência de levar até o Deus supremo as grandes questões dos seres humanos. Assim, já que contribuem também para a ordem do Universo, eles devem sempre ser lembrados, acarinhados e satisfeitos, através de práticas especiais. Essas práticas, que representam um culto em si, podem, quando simples, ser realizadas pelo próprio interessado. Mas, quando complexas, devem ser orientadas e dirigidas por um chefe de culto, um sacerdote.
Dentro dessas linhas gerais, segundo entendemos, foi que se desenvolveu a religiosidade africana no Brasil e nas Américas.
Relevância. Os estudos dos padres Tempels e Altura desenvolveram-se entre povos do grupo Banto, do centro-sudoeste africano. Mas outros estudos, inclusive de sábios e cientistas nativos, nos deram conta de que, embora as religiões negro-africanas tenham suas peculiaridades, todas elas comungam de uma ideia central, a da inter-relação entre as forças vitais, sendo vivenciadas segundo princípios comuns.
Por conta dessas formulações, em 1950, no texto Philosophie et religion des noirs(revista Présence Africaine, nº especial 8-9), o antropólogo francês Marcel Griaule primeiro indagava se seria possível aplicar as denominações “filosofia” e “religião” à vida interior, ao sistema de mundo, às relações com o invisível e ao comportamento dos negros. Perguntava-se, ainda, sobre a existência de uma filosofia negra distinta da religião e de uma religião independente, de uma metafísica, enfim.
Ao final de sua indagação, o cientista afirmava a existência de uma verdadeira ontologia (parte da filosofia que estuda a existência) negro-africana, concluindo pela antiguidade do pensamento nativo, nivelando algumas de suas vertentes a concepções filosóficas asiáticas e da Antiguidade greco-romana; e ressaltando a necessidade e a importância do estudo desse pensamento. Quatro décadas depois, o já citado Altuna, fazendo eco aGriaule, afirmava: “Basta debruçarmo-nos sobre esse conjunto de crenças e cultos para encontrar uma estrutura religiosa firme e digna”.
Definição. O termo “religião”, segundo N. Birbaum, referido no Dicionário de Ciências Sociaispublicado pela Fundação Getúlio Vargas, em 1986, define um conjunto de crença, prática e organização sistematizadas, compreendendo uma ideia que se manifesta no comportamento dos seguidores. Daí aferimos que toda religião se define, em princípio, por um culto prestado a uma ou mais divindades; pela crença no poder desses seres ou forças cultuados; e em uma liturgia, expressa no comportamento ritual; e finalmente pela existência de uma hierarquia sacerdotal.
Pelo menos desde meados do século XIX, as religiões chegadas da África ao Brasil, apesar de todas as condições adversas, conseguiram recriar, no novo ambiente, as crenças e as práticas rituais de sua tradição ancestral, dentro dos princípios científicos que definem o que seja religião.
Na própria África já se distinguia, por exemplo, o feiticeiro (ndoki, entre os bantos), agente de malefícios, do ritualista (mbanda ou nganga), manipulador das forças vitais em benefício da saúde, do bem-estar e do equilíbrio social de sua comunidade. E no Brasil, como em outros países das Américas, as diversas vertentes de culto chegaram a tal nível de organização que constituíram, de modo geral, categorias sacerdotais altamente especializadas. Por exemplo, no candombléum babalorixá (“pai daquele que tem orixá”, e não “pai de santo”, como se traduziu derrogatoriamente) não tem a mesma função de um“babalaô” (“pai do segredo”), responsável por interpretar as determinações do oráculo Ifá. Uma equede (sacerdotisa que atende os orixás quando incorporados) não tem as mesmas funções de uma iá-tebexê (a responsável pelos cânticos rituais). Da mesma forma que umaxogum (sacrificador ritual) não tem as mesmas funções de um alabê (músico litúrgico), por exemplo.
As religiões de matriz africana no Brasil, em suas várias vertentes, praticam uma liturgia complexa, que compreendem rituais privados e públicos. Nas práticas privadas, todo ritual se inicia pela invocação nominal dos ancestrais, remotos e próximos, dos fundadores do templo, em listas tão mais longas quanto mais antigo for o “fundamento” da casa. Nas festas públicas, notadamente no chamado candomblé jeje-nagô, oriundo da região africana do Golfo do Benin, as divindades (orixás ou voduns) se manifestam numa ordem rigorosamente obedecida, da primeira à última a entrar na roda das danças. E por aí vamos.
Constitucionalidade. Não é o monoteísmo que caracteriza uma religião. Se assim fosse, as religiões orientais como o hinduismo, o taoísmo etc. não seriam como tal consideradas. Muito menos o é a circunstância de as práticas religiosas serem ou não baseadas em textos escritos. A propósito, o historiador nigeriano I.A. Akinjogbin, em artigo na coletâneaLe concept de pouvoir em Afrique (Paris, Unesco, 1981), assim se manifestou: “O conhecimento livresco tem um valor formal e importado, enquanto o saber informal é adquirido pela experiência direta ou indireta. Os conhecimentos livrescos não conferem sabedoria (…) O ensinamento tradicional deve estar unido à experiência e integrado à vida, até porque há coisas que não podem ser explicadas, apenas experimentadas e vividas”.
Vejamos, em conclusão, que toda a tradição africana de culto aos orixás, da qual no Brasilse originaram principalmente o candomblé da Bahia (nagô e jeje), o xangô pernambucano, o batuque gaúcho e a umbanda fluminense, tem uma base filosófica. Esse fundamento é, em essência, o vasto conhecimento que emana da tradição iorubana de Ifá, o oráculo que tudo determina, em todos os momentos da vida de uma pessoa, de uma família, de uma cidade, de uma nação etc. Da tradição de Ifá é que vêm, por exemplo, a origem dos orixás, sua mitologia, suas predileções, suas cores etc. O popular jogo de búzios é uma forma simplificada de consulta ao oráculo.
Esse corpo de doutrina, compreendendo muitos milhares de parábolas, foi transmitido de geração a geração entre os antigos babalaôs, na África e nas Américas. E nos tempos atuais, embora não unificado, já começa a ter circulação inclusive na internet.
Pois essa tradição remonta a muitos séculos; e sua história se conta a partir do momento em que Oduduá, o grande ancestral dos iorubás, cuja presença histórica, no século XII d.C., é atestada cientificamente (cf. A. F. Ryder, História Geral da África, Unesco/MEC/UFScar, vol. IV, 2010, p. 389), após fundar a antiga cidade de Ifé, enviou seus diversos filhos em várias direções, para fundar cada um o seu reino.
Mas esta é apenas uma parte da alentada e sábia tradição religiosa que os antigos africanos legaram ao Brasil. A qual, como um todo, goza da proteção constitucional doartigo 5º da Constituição Federal, bem como daquela assim enunciada: “O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (art. 215, parágrafo 1º).
Nei Lopes é autor de, entre outros livros, Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos (Ed. Senac-Rio, 20

domingo, 18 de maio de 2014

Guerra às drogas: "por que não tentar o diferente depois de tanto fracasso?"

Fonte: cartamaior

Caio Hornstein
Democracy Now!

A política de proibição e de guerra às drogas provou-se um monumental fracasso no mundo inteiro. Se, por um lado, o consumo de drogas ilícitas não diminuiu, por outro, houve uma assustadora escalada da violência associada ao tráfico de entorpecentes, resultando no assassinato e no encarceramento em massa de milhares de cidadãos – em especial aqueles pertencentes a estratos sociais vulneráveis. Diante desse impasse, aumenta o coro das vozes progressistas que reforçam a necessidade da revisão das práticas truculentas de proibição às drogas, propondo uma abordagem mais humana para lidar com o problema.
 
É nesse contexto de necessidade de proposição de novas políticas públicas que anfiteatro da Unifesp, em São Paulo, recebeu, na tarde de terça-feira (13), dois pesquisadores estrangeiros com larga experiência no assunto.
 
No Brasil por ocasião do lançamento de seu livro Um Preço Muito Alto (Editora Zahar), Carl Hart, neurocientista e professor da Universidade de Columbia, compartilhou sua história de vida com a plateia que lotou o anfiteatro da universidade.
 
Negro e pobre, Hart cresceu na periferia de Miami e teve trajetória parecida com a de muitos jovens afro-americanos nos guetos: praticou pequenos furtos, usou e traficou drogas. Desprovido de condições econômicas para matricular-se em uma universidade, alistou-se no exército americano na década de 1980 e, em serviço militar na Inglaterra, teve o privilégio de receber uma educação crítica que lhe abriu os olhos para as desigualdades e a discriminação racial em seu país natal. Ao voltar para os Estados Unidos, dedicou-se à pesquisa científica em assuntos relacionados ao uso de drogas, tornando-se, por fim, doutor em neurociência. “Eu pude me tornar o cientista que sou graças a programas de assistência social que, infelizmente, foram dramaticamente reduzidos por sucessivos presidentes americanos desde Ronald Reagan, inclusive os democratas”, analisou Hart.
 
Aliando a experiência de ter crescido nos guetos norte-americanos – e, por essa razão, ter vivenciado o impacto deletério das políticas repressoras do consumo de entorpecentes – ao rigor das análises científicas, o Dr. Carl Hart têm chamado a atenção por suas opiniões e estudos que desconstroem conceitos cristalizados sobre o vício em drogas. “É corrente a ideia de que basta uma dose de crack ou de cocaína para que, magicamente, a pessoa passe a ser viciada. O vício, por definição, exige o uso intenso e prolongado. Quem afirmar o contrário, está espalhando uma mentira científica”, provocou Hart.


O neurocientista compartilhou os resultados de testes realizados com viciados em crack, nos quais lhes era oferecido uma dose da droga ou uma determinada quantia em dinheiro. “Quanto maior o valor, mais os viciados optavam por ele. Isso indica que, se devidamente motivados, eles tomam decisões racionais como qualquer outra pessoa”, comentou. “As pessoas não usam drogas por serem loucas. As pessoas usam drogas porque elas são efetivas. Se a pessoa se vicia em crack, é porque ele tem o efeito desejado para aplacar momentaneamente os efeitos da angústia e do desamparo social.”
 
Em seguida, o Dr. Carl Hart ironizou o fracasso da política de repressão às drogas. “A chamada ‘guerra às drogas’ não fracassou. Ela é um grande sucesso para as autoridades empenhadas nessa missão e que ganham dinheiro às custas disso. Ela é um grande sucesso para que políticos evitem lidar com os problemas de justiça social – eles podem desumanizar todos os problemas, colocando a culpa nas drogas e deslocando a raiz da ruína social. Assim, eles não precisam tratar de temas como a falta de educação, o desemprego e a falta de assistência social.”


Sobre o impacto social da criminalização da questão das drogas nos Estados Unidos, sobretudo na população negra, Hart foi enfático. “Gastam-se mais de 26 bilhões de dólares por ano no combate às drogas. Um investimento dessa envergadura exige retornos práticos e diretos. O resultado é que a principal motivo de encarceramento no país é a violação da política de proibição de narcóticos, atingindo de maneira brutalmente desproporcional a população negra, que constitui 12% da população americana, mas 75% dos condenados por transgressão da legislação antidrogas. Os negros acabam virando um bode expiatório”. Segundo o neurocientista, o Brasil repete o modelo que se provou desastroso nos Estados Unidos, ao promover a militarização das favelas e endurecer a repressão.
 
Outra convidada internacional presente ao debate realizado na Unifesp, a uruguaia Raquel Peyruabe, médica especializada no uso problemático de drogas e Assessora da Secretaria Nacional de Drogas do Uruguai, comentou as razões que levaram o país a aprovar um projeto de regulamentação da maconha, a ser implantado ainda este ano.
 
“A decisão de promover políticas públicas inovadoras, que vão na contramão das práticas de proibição, veio da constatação da ineficácia do modelo anterior. O Uruguai vinha presenciando um aumento dos índices de violência associados ao tráfico de drogas que, embora possam parecer pequenos se comparados aos de países vizinhos, eram insuportáveis para os padrões locais”, analisou.
 
Peryuabe ressaltou que a aprovação do modelo de regulamentação da maconha foi fruto de longo e frutífero processo de discussão política, do qual fez parte setores da sociedade civil. “A regulamentação da venda da maconha é apenas uma parte da nova legislação do Uruguai em relação às drogas. Faz parte de um projeto mais abrangente, que envolve medidas socioeducativas e de saúde para lidar com a questão”.
 
Depois de aprovado pela câmara, o projeto foi fortemente contestado pela oposição, pela mídia e por setores majoritários da população. Para combater a euforia negativa, o governo investiu pesadamente em um plano de mídia, informando com clareza à população as intenções da nova política e desconstruindo, ponto a ponto, com dados objetivos, os principais argumentos de oposição à regulamentação da maconha. A medida surtiu efeito e as pesquisas de opinião indicam que as taxas de desaprovação vêm caindo. “Mesmo quem ainda é contra as medidas, já sabe reconhecer seus potenciais benefícios. O importante é dialogar de maneira objetiva com a população. Mesmo que o cidadão seja ignorante sobre as questões relativas à legalização, ele compreende dilemas práticos como: ‘a partir do princípio de que os usuários vão comprar a maconha de qualquer maneira, onde vocês preferem que eles comprem: com traficantes portando revólveres ou em uma farmácia, com toda segurança?’”, disse Peryube.

Raquel considera que é do interesse de todos torcer pelo o sucesso da nova política uruguaia, que pode desencadear uma tendência em todo o continente. “Faço sempre a pergunta: por que não tentar o diferente depois de tanto fracasso? Se não estamos satisfeitos com a realidade, por que não tentar o novo, o diferente? Tudo aquilo que a população teme que ocorra com a regulação já está, de fato, acontecendo. O mercado já foi regulamentado, mas pelo crime organizado. Temos de mudar o lado da regulação. Se as substâncias psicoativas são perigosas, é o Estado que deve regular, não o crime”, concluiu a uruguaia.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Sem teto, param SP, mas o que querem?

No Rio, o movimento dos sem-teto é criminalizado, em uma tentativa de deslegitimá-lo.

Fonte: outraspalavras.net

140515-MTST
Cinco manifestações simultâneas reivindicam Direito à Cidade. Movimento soma-se a protestos contra Copa, mas tem pautas e formas de organização específicas e originais
Por Antonio Martins
A bandeira do Direito à Cidade – abraçada há alguns anos pelos coletivos da juventude politizada de classe média – está sendo erguida neste momento, em São Paulo, por aqueles que a reivindicam há muito. Milhares de famílias de sem-teto paralisaram em manifestações, a partir das 9 horas da manhã, cinco das grandes artérias viárias da cidade: entre elas as marginais dos rios Tietê e Pinheiros e a Radial Leste. Os bloqueios são iniciativa do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
As marchas são parte dos protestos contra as condições em que está organizada a Copa do Mundo de futebol. À tarde, haverá atos em dezenas de cidades brasileiras. Mas pelo menos duas características chamam atenção especial, na luta articulada pelo MTST. A primeira é a capacidade de despertar, para a ação política, quem é normalmente visto como um incômodo urbano ou, no máximo, um voto na urna a cada quatro anos.
Cerca de trinta mil pessoas – “quase todos pretos, ou quase pretos, de tão pobres” – ocuparam, a partir de novembro de 2013, um terreno abandonado à especulação nas proximidades da Represa de Guarapiranga, periferia sul da metrópole. Deram ao local o nome de Nova Palestina. Organizam-se em grupos de trabalho coletivo, que assumem responsabilidade pela alimentação, infra-estrutura (água e luz elétrica), limpeza e segurança. Reúnem-se em assembleias periódicas. [Leia reportagem de Isabel Harari e Roberto Oliveira]. Adotaram a mesma fórmula, há semanas, aoocupar outro terreno vazio, agora em Itaquera, a cerca de quatro quilômetros do estádio em que será aberta a Copa.
Esta organização deu-lhes iniciativa política. Em 29 de abril, centenas deles manifestaram-se diante da Câmara Municipal, para exigir que o novo Plano Diretor da cidade previsse a criação de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) destinadas à habitação popular, além de outros dispositivos com mesmo sentido. Foram vitoriosos: um dia depois, o Legislativo aprovava a medida, em primeira votação (o segundo voto ocorrerá até o final de maio).
Os sem-teto reúnem-se com Haddad: a direita pira
Os sem-teto reúnem-se com Haddad: a direita irrita-se
Possuir pautas específicas é, precisamente, o segundo traço que distingue o MTST. Ao paralisarem a cidade hoje, os sem-teto apoiam as ações dos Comitês Populares da Copa, mas fazem três reivindicações práticas, precisas e com grande potencial de repercutir na cidade. Reivindicam o controle do preço dos aluguéis, cuja alta desgovernada atinge tanto os pobres como a classe média. Exigem o fim dos despejos forçados da população a pretexto de obras públicas. Apontam, inclusive, o meio concreto de fazê-lo: criando, na Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal, uma Comissão de Acompanhamento que aponte e paralise tais abusos.
Por fim, propõem três mudanças que, se adotadas, transformarão o programa Minha Casa, Minha Vida, eliminando seus aspectos associados à exclusão urbana e à especulação imobiliária. Querem melhor localização dos conjuntos habitacionais (normalmente relegados às periferias remotas); mais qualidade dos imóveis; melhores condições para que sejam construídos por cooperativas habitacionais, ao invés das empreiteiras privadas.
Interessada em desgastar o governo federal, a mídia tem inflado as manifestações contra a Copa. Mas tenta esvaziar o sentido profundo das lutas dos sem-teto. Demoniza-os, quando exigem o Direito à Cidade. As manchetes têm dito, frequentemente, que São Paulo “sofre” uma “onda de invasões” de imóveis. Em “Veja”, o blogueiro Ricardo Azevedo chegou a escrever que “Fernando Haddad agora é refém dos sem-teto”, quando o prefeito reuniu-se com o movimento e prometeu atender suas reivindicações.
Em outros momentos, como hoje, a tática é espetacularizar os sem-teto: fotografar suas manifestações, mas omitir sua pauta potente em favor do Direito à Cidade. Por isso, vale resgatá-la e difundi-la.
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