PELENEGRA

Blog comprometido com as mais diversas lutas sociais do planeta, particularmente, o que diz respeito a luta pelo socialismo, a ampliação do uso dos software livre Gnu/Linux na busca pela expansão de nossa inteligência coletiva e da cultura livre, além da batalha pela melhoria das condições de vida da população brasileira, sobretudo, do povo negro.

domingo, 13 de abril de 2014

Driblando o Secure Boot do Windows e instalando o Elementary OS Luna, Ubuntu, Linux Mint

Tutorial enviado pelo amigo Sérgio G. Prada

Vamos ao tutorial:

1º) Instale o Gnu/Linux de sua preferência, ele não será reconhecido pelo sistema;

2º) em seguida, nas opções da BIOS, desative a opção para o "Secure Boot", sendo também recomendável desligar o "Fast Startup" ou o seu equivalente dependendo do fabricante da BIOS.

3º) obtenha a imagem ISO do disco do Boot Repair Disk, que pode ser obtida, no endereço eletrônico  http://sourceforge.net/p/boot-repair-cd/home/Home/;

4º) queime  um CD com o Boot Repair Disk (a imagem tem pouco mais de 550 MB),

5º) dê "boot" no sistema através dele, logicamente dando esta opção de início na BIOS;

6º) entre no Boot Repair Disk e tecle na opção "Recommended Repair" e aguarde a solução automática que tal programa proporcionará.

7º) quando do reinício, o computador será capaz de ler e iniciar todos os sistemas operacionais instalados na máquina com o Grub2.

Opção que não usei (siga por sua conta e risco):

Após o primeiro e segundo passo do tutorial anterior, siga tais procedimentos: através de um "Live CD" do Ubuntu ou de um de seus derivados (o Mint, por exemplo) digitar os comandos em um terminal para a ação do Boot Repair:

sudo add-apt-repository ppa:yannubuntu/boot-repair && sudo apt-get update
sudo apt-get install -y boot-repair && (boot-repair &)

domingo, 6 de abril de 2014

Tristeza, intolerância abafa o som dos tantãs na Penha

Por Sergio J Dias

Hoje acordei cedo, mas saí tarde, depois de uma hora me dirigi feliz e fagueiro para a Feira de domingo no bairro da Penha, no Rio de Janeiro. Desci do ônibus e me dirigi,  após alguns meses de ausência a um local que para mim era pura diversão. Afinal, acontecia ali na rua Montevideo um dos melhores  pagodes da cidade. Ele começava depois das 12:00 hs, já tinha virado um ponto de bambas, os donos, dois irmãos negros, comemoravam inclusive a ampliação do espaço.
Entrei na rua e estranhei, cadê a feira? Caminhei alguns metros. Parei e perguntei a um comerciante informal:
- Onde está a feira?
Ele respondeu:
- Mudou para a rua ao lado, a Belisário Pena.
Meio contrariado e sem ouvir os alegres e inebriantes sons dos tantãs, me encaminhei para o endereço informado. Lá encontrei os legumes descascados e ensacados que tanto deixam satisfeita a minha esposa e as belas frutas, doces acepipes sem igual. Contudo, algo me intrigava, olhava à volta e sentia os feirantes cabisbaixos, desanimados, e cheguei mesmo a ouvir o seguinte diálogo:
- Vamos nos organizar, temos de voltar ao local de origem. Tantos anos e a Prefeitura nos tira de lugar sem a menor satisfação.
Ao que outro respondeu
- É o negócio aqui não tá bom!
Fui até a outra ponta da rua, podia dali retornar para casa, pegar o ônibus e dar fim a nossas aventura. Não pensei, mais alguns passos e voltei à rua Montevideo, continuei andando e passei em frente ao bar onde se realizava o delicioso pagode, estava fechado. Pude observar que ele estava situado em frente à sede de uma Assembléia de Deus. Isto me deu algumas pistas, só faltava a confirmação das suspeitas. Mais alguns passos e um  "comerciante informal", um negro de pele bem escura, ainda jovem, aqui no Rio, chamado de "flanelinha", coordenava saídas e chegadas de automóveis.
Perguntei-lhe, então:
- Cadê o pagode?
E veio a resposta:
- Acabou!
Simples assim, mas insisti:
- Ah! Dizem que foi política.
Continuei  até o final da rua, fiz contato com mais um "comerciante informal", desta vez, uma loura, certamente de origem nordestina, com seus quarenta anos, ela conversava animadamente com um homem que parecia ser mais um cliente para seus produtos. Parei e fiz a derradeira pergunta:
E o pagode:
Acabou! A Prefeitura decidiu mudar a rua da feira. O pessoal vinha para comprar e ficava apreciando o som. Estão dizendo que foi a igreja, aquela Assembleia de Deus.
E o homem ao lado completou: Foi o Eduardo Paes, sabe como é? Época de eleição, votos...
Aparvalhado, peguei o primeiro ônibus e voltei para casa. Havia sido notificado de mais um episódio de intolerância, sancionado pela nossa digníssima Prefeitura.
O bairro da Penha não merecia mais essa perda. Depois do fim do Cortume Carioca e de sua notória decadência, o ocaso de um dos melhores destinos dos últimos tempos na cidade.
Tristeza, lástima, abafaram mais uma vez o som dos tantãs, pandeiros, repiques e agogôs.


sábado, 29 de março de 2014

Osvaldo Coggiola, "Golpe militar de 64 foi a pedido da burguesia"

Fonte: sedufsm

Osvaldo Coggiola, professor de História da USP, fala sobre as ditaduras do Brasil e na América Latina

Osvaldo Coggiola: retrocesso político e cultural é a principal herança da ditadura militar


Apesar de hoje não existirem as condições internas ou mesmo apoio internacional para um golpe militar em países da América do Sul, o risco da retomada de uma ditadura é sempre presente enquanto os militares seguirem sendo uma casta com o monopólio da força pública. É o que pensa o professor do departamento de História da USP, Osvaldo Coggiola. Nesta entrevista, concedida à assessoria de imprensa da Sedufsm durante o 33º Congresso do ANDES-SN, o docente, que também integra a diretoria do ANDES-SN, fala sobre diversas questões relativas não apenas ao golpe de 1964, mas também sobre as diversas ditaduras militares que entre as décadas de 1950 e 1970 corroeram o continente americano.



Para Coggiola, os militares não atuaram sozinhos, pois receberam apoio pleno da chamada burguesia, ou seja, da elite empresarial do país, que bateu à porta dos quartéis pedindo que houvesse um golpe. O professor fala da importância de rememorar o 31 de março de 1964, em função de que o sistema político atual ainda guarda resquícios do período. Na entrevista, Coggiola aborda as condições conjunturais daquele momento que permitiram a tomada do poder pelos militares, traz alguns tópicos relacionados à Operação Condor, que foi um processo de articulação dos governos ditatoriais das Américas e, sobretudo, rechaça argumentos de quem dissemina a ideia de que o golpe no Brasil, em 1964, teria sido para evitar um golpe comunista.



A conversa com o professor integra uma série de entrevistas que a Sedufsm vem realizando para marcar o dia 31 de março, data em que se relembram os 50 anos do golpe militar no Brasil, ação que levou o país a duas décadas de censura, repressão e violência. Acompanhe a seguir:







P - Qual a principal herança que os ditadores militares, no período mais recente, deixaram para a América Latina?

R - A principal herança que eles deixaram foi um retrocesso político e cultural histórico. Nos países em que mais se sofreu a repressão, como na Argentina e no Chile, boa parte de uma geração de lutadores desapareceu. E isso é insubstituível, pois são pessoas, cérebros, obras. Muitas delas eram jovens, setores extremamente dinâmicos que simplesmente desapareceram. Na Argentina se fala em 30 mil vítimas, mas esse número não dá conta da qualidade do que essas pessoas representavam. Ou seja, da importância que essas pessoas tinham, eram estudantes, sindicalistas. Essas pessoas são insubstituíveis. Isso se vê, por exemplo, nos partidos de esquerda, e o caso típico é a Argentina. Há militantes de 60 anos para cima e há outros até a idade de 40 anos. A geração que tem 40, 50 anos, é pouco numerosa, pois é uma geração que foi eliminada fisicamente. Por isso, observamos um buraco geracional, não apenas nos partidos políticos, mas até mesmo nas universidades. É uma geração que sofreu as consequências do exílio, da tortura e da morte. A repressão não se refere apenas aos mortos. São as pessoas que foram para o exílio e nunca mais voltaram. As pessoas que passaram longos períodos na prisão. As pessoas que abandonaram projetos de vida e nunca mais puderam retomá-los. Então, a cifra é muito maior que os simples números da repressão. Essa cifra não está calculada e não teria importância calcular, porque ela é muito maior que os 30 mil na Argentina e maior que as centenas desaparecidas no Brasil. Em função disso, outra herança é o medo, que as gerações mais jovens estão perdendo ao se engajar em projetos revolucionários mais recentes. Isso [a ditadura] criou uma consciência medrosa. Se chocar frontalmente contra a ordem constituída vai suscitar uma reação de tal ordem por parte da ordem constituída que não vale a pena o choque. As gerações que saíram à rua em junho aqui no Brasil e outras que estão lutando atualmente na Argentina não têm esse medo, porque não sofreram esse período, eles nasceram em meados da década de 80 ou 90, quando as ditaduras já eram coisas do passado. Por isso se dá um choque atualmente entre o dinamismo político e social dessa juventude – de toda a América Latina – e as lideranças políticas sobreviventes do período precedente, porque parte de duas experiências políticas diferentes. Uns não têm esse medo da repressão – está claro que atualmente há repressão, mas contra movimentos e não contra pessoas perseguidas individualmente -, enquanto as gerações precedentes têm essa experiência. Quero dizer, essa experiência não é puramente negativa, porque o realismo político também é necessário. Mas às vezes isso provoca um choque. Por exemplo, a Marilena Chauí chegou a falar que os jovens que estavam nas ruas em junho acreditam no poder mágico da política, deixando como uma crítica ao movimento. Isso é tipicamente uma reação da geração mais velha diante da audácia da geração mais jovem. Há uma incompreensão geracional que só tem superação em termos políticos, não pode ter uma superação em termos culturais porque isto é normal, faz parte da vida. É absolutamente claro que processos revolucionários historicamente, desde a Revolução Francesa em diante, tiveram como protagonistas fundamentais as gerações mais jovens. Entre as lideranças revolucionárias raramente as pessoas superavam os 40 anos de idade. Nunca se viu uma revolução feita com pessoas de 70 anos ou mais. Parece que o retrocesso político, cultural, foi a herança mais importante (da ditadura).



P - Na sua avaliação, qual a importância de ser rememorado os 50 anos do golpe militar de 1964?

R - A importância é grande, em primeiro lugar porque vivemos num sistema político que, em grande parte, é originário das leis de exceção que foram proclamadas naquele período. No momento em que se discute um projeto de lei antiterrorista, a lei de segurança nacional ainda está ali dentro, e essa lei de segurança nacional é parte do arcabouço jurídico da ditadura militar. Portanto, a principal importância de se lembrar o golpe de 64 é lembrar tudo que está em pé, desde lá, na estrutura política brasileira atual. A segunda importância histórica extrapola as dimensões do Brasil, porque o golpe brasileiro de abril de 1964 foi o primeiro de uma série de golpes que abalaram toda a América Latina. Mais para o fim de 64, tivemos o golpe boliviano, que veio acabar com as consequências da revolução de 1952, que nacionalizou as minas na Bolívia e tudo mais. Na Argentina tivemos um período de grande convulsão política, que se inicia com o golpe militar em 1966 e que no fundo só vai terminar em 83, 84, quando finalmente o último golpe militar cedeu seu lugar a um governo eleito por vias democráticas. Então, temos aí uma situação de aproximadamente 20 anos em que toda América do Sul viveu um período de forte repressão e de militarização da sociedade. E o sinal verde para esse processo, que abalou excessivamente nosso continente, foi exatamente o golpe militar de 1964. A América Latina seguiu o Brasil, e o Brasil seguiu os Estados Unidos. Portanto, hoje lembrar o golpe de 1964 não é lembrar um episódio do passado, é lembrar um episódio que ainda está presente no arcabouço político vigente no Brasil e ainda está presente no restante dos países da América Latina.



P - Quando se fala em ditadura militar no Brasil é preciso lembrar que na América do Sul houve a Operação Condor. O que falta contar, no teu entendimento, sobre o colaboracionismo entre os vários regimes militares?

R - Isso foi muito central nos últimos tempos a partir da descoberta de que de fato existia uma coordenação das ditaduras militares, e que essa coordenação foi apoiada pelos Estados Unidos. Isso foi descoberto a partir de uma série de arquivos e papéis no Paraguai, não por acaso, pois justamente o Paraguai era a ditadura mais antiga, que provinha de 1954. Essa questão deixou absolutamente claro o que já se sabia, que havia essa colaboração. Já se sabia, por exemplo, a partir do Universindo (Díaz), militante uruguaio que foi sequestrado no Rio Grande do Sul e levado para o Uruguai junto com Lilian Celiberti. E houve outros casos que se pode relatar de militantes brasileiros que foram sequestrados na Argentina, e por aí vai. Portanto já se sabia, antes que se especulasse a Operação Condor, de que havia essa colaboração. A Operação Condor em si não foi uma novidade, a novidade foi simplesmente o fato de se estabelecer claramente que ela existia. Há um perigo na questão da Operação Condor ao se tomar exclusivamente esse aspecto, e em particular o fato de que os EUA estavam por trás dessa repressão, de inocentar, de alguma maneira, os militares latino-americanos. Dizer, por exemplo, que os EUA infiltraram pessoas nos exércitos sul-americanos, para que estes [exércitos], sob o comando desses infiltrados, fizessem golpes militares, repressão, etc, na verdade não foi assim. O golpe não foi originado nos EUA. O golpe foi originado no Brasil, na Argentina, no Chile, a partir do exército e a partir das lideranças civis que apoiaram esse golpe, que em particular incluem a grande maioria das lideranças empresariais de todos esses países. As lideranças empresariais chilenas, argentinas, uruguaias, brasileiras, apoiaram e bateram na porta dos quartéis. Esse foi o movimento que propiciou o golpe. Se tivesse só os EUA por trás não teria havido golpe, ou o golpe teria sido derrotado. Ou seja, foi um movimento da burguesia de nossos países, com seus representantes políticos e militares. E o golpe não foi de um setor infiltrado no interior das Forças Armadas. Na verdade foi um golpe das Forças Armadas como instituição. Quando se toma a Operação Condor como único elemento existente dentro desses processos se chega a uma imagem caricatural dos processos militares. Essa imagem caricatural diz que os golpes foram produtos de espécies de elites militares que agiam obedecendo ordens que vinham do exterior. Mas não foi o golpe de uma elite militar, foi um golpe das Forças Armadas como tais. Com alguma resistência dentro das Forças Armadas, o que foi claro no caso brasileiro. Ou com nenhuma resistência, como foi o caso da Argentina. Então, a instituição como tal foi a protagonista, e não só a instituição, mas também as classes sociais que apoiaram o golpe. E em segundo lugar temos também a construção, que já se viveu na segunda guerra mundial, de uma imagem idealizada, que não corresponde à verdade, e que poupa analisar a dinâmica de classes, ou seja, fazer uma análise marxista desses golpes e processos. Por exemplo, a construção de uma mitologia se deu logo depois da Segunda Guerra Mundial. Ela demorou muitos anos para ser reconstruída, e ainda está sendo reconstruída. A mitologia que afirma que uma vez que em países – França, Polônia, etc – enfim, países que ficaram ocupados por exércitos nazistas, a população resistiu, mas não teve sucesso devido à força extraordinária do exército nazista. Uma imagem idealizada que não corresponde à verdade e que poupa o fato de que não somente lideranças empresariais, mas setores importantes da população apoiaram e fizeram grandes negócios com o nazismo. E só nas duas últimas décadas que apareceram uma série de livros, pesquisas e obras cinematográficas que mostram como um setor importante da população apoiou a invasão nazista e se sentiu muito bem. No caso latino-americano também se vê que os órgãos de imprensa e a mídia que apoiaram o golpe militar, agora se referem àquele período como o período negro da ditadura militar, quando esses mesmos órgãos apoiaram naquele momento. E procuram algum e outro detalhe que os apresente como opositores, quando não foram opositores, ao contrário, foram colaboradores extremos, como o caso típico da Folha de São Paulo, ou da Globo, enfim. E também o apoio de setores importantes e grandes da classe media.



Falta falar tudo isso: em primeiro lugar que não foram golpes que suscitaram a oposição de todos, tiveram apoio interno, apoio quase total da burguesia, não houve nenhum setor do empresariado que se pronunciasse contra o golpe militar em nenhum desses países. E esse empresariado é o mesmo que temos atualmente, com pequenas mudanças. E em segundo lugar com apoio de setores e instituições. O que suscitou muitas polêmicas foi o apoio da igreja católica, que no caso argentino e chileno foi um apoio militante. A igreja católica chamou pelos golpes antes e depois apoiou, chegando no caso argentino a estar envolvida nos próprios extermínios. Isso suscitou grandes polêmicas para esclarecer qual tinha sido a atitude do atual papa diante da ditadura militar. Existiram exceções dentro da igreja, mas essas não estão vivas porque foram mortas. Portanto, o que falta para esclarecer é fazer uma história objetiva, que parta dessa dinâmica de classe, e que veja que foi um movimento de reação política. Não foram governos como nazismo ou fascismo italiano. Mas dizer que não eram regimes fascistas não significa que alguns traços do fascismo não estivessem presentes.



P - Há historiadores que desenvolvem o argumento de que o golpe no Brasil teria sido reação a um golpe que se preparava pela esquerda. Qual a sua avaliação?


R - É uma versão capciosa e mal intencionada. Uma revolução proletária, quando vitoriosa, se impõe através de um golpe. Derruba quem está no poder pela força. Logicamente no caso brasileiro essa possibilidade não existia. Não havia nenhuma revolução prestes a ser realizada no Brasil. O golpe de 64 foi o caso típico de um golpe preventivo. Mesma coisa pode se dizer do golpe militar argentino de 66 e até certa medida do golpe boliviano de 64. Já o golpe boliviano de 71 contra a assembleia popular – que proclamava abertamente a busca pelo poder -, o golpe chileno de 1973, o golpe uruguaio de 1973, o golpe peruano de 1975 e principalmente o golpe argentino de 1976 eram golpes contrarrevolucionários, ou seja, contra revoluções em andamento. Revoluções em andamento não significa que essas revoluções tivessem garantido a sua vitória, mas havia processos de mudança revolucionária em andamento. Diferentemente do golpe brasileiro, foram golpes contrarrevolucionários, não preventivos, por isso foram muito mais violentos, porque em geral o golpe preventivo faz uma repressão de caráter seletivo. Já os golpes da década de 70 não foram repressão de curto alcance e preventiva, foi repressão para destruir qualquer possibilidade de uma ação revolucionária. Obviamente tem as pessoas que falam que os militares agiram porque pensavam que ia se implantar uma ditadura comunista. Tudo bem, os militares podem ter agido por esse motivo ou qualquer outro. E fizeram uma ação política obviamente em função do que eles pensavam. Mas isso não é uma desculpa. O fato de pensar dessa maneira não lhe confere qualquer tipo de legitimidade para executar uma ação dessa natureza. Apresentar um golpe de direita e dizer que – como dizem um monte de jornalistas – os militares finalmente implantaram uma ditadura, mas que pior seria uma ditadura de esquerda, como na União Soviética. Essas pessoas evidentemente não são inteligentes e gostam de pensar como a classe dominante. Nos últimos tempos se acentua esse movimento e vemos uma inúmera quantidade de artigos – na Veja, na Folha de São Paulo – de jornalistas, até jovens, que defendem esse ponto de vista. Esse ponto de vista é completamente idiota e reacionário. Mas ao mesmo tempo é bem remunerado. Recebem por isso. E tem a grande imprensa facilitando para esse tipo de opiniões. Eles estão dizendo que uma revolução se apoia num golpe e instaura uma ditadura revolucionária. Mas isso não é nenhuma novidade, os revolucionários já afirmam isso desde o século XVIII. Afirmar que havia um plano sorrateiro... não havia nenhum plano sorrateiro. Aliás, as grandes revoluções da história não têm nada de plano sorrateiro, se fazem em momentos de aguçamento da luta de classes, em que as frações revolucionárias proclamam abertamente que o que é necessário nesse momento não é apenas uma mudança constitucional, mas uma verdadeira revolução. E afirmar que a implantação de regimes de caráter socialista na Argentina, Brasil e em qualquer dos países, teria resultado numa coisa semelhante à União Soviética não tem nenhum sentido. Tomamos o caso da revolução cubana... Cuba atualmente não é nenhum modelo político a ser imitado porque não há verdadeira democracia operária. Mas dizer que em Cuba houve um massacre da população semelhante àquele praticado por Stalin, que matou milhões de pessoas, é muito idiota. Essa teoria é uma vulgaridade completa, reacionária e de direita. E é dita por pessoas que citam autores que não leram, ou seja, pessoas incultas que disfarçam sua incultura com citações de terceira mão. Lamentavelmente o problema é que essas pessoas têm acesso à grande mídia e os verdadeiros historiadores e pesquisadores são lidos por poucas pessoas. Nós vivemos uma ditadura da burguesia, sob formas democráticas, não somente no aspecto social, mas no aspecto político, ideológico e cultural.



P - Os sindicatos, movimentos sociais e populares podem realmente ficar tranquilos de que “golpe nunca mais”?

R - Não. Em primeiro lugar, quando se afirma que golpe nunca mais quer dizer que governos militares como existiram naquele momento nunca mais, e provavelmente nunca mais mesmo. Mas não são esses únicos movimentos possíveis de reação política. Atualmente isso é impossível, mas por motivos muito concretos, em alguns casos se trata simplesmente da decadência, no caso do exército argentino que atualmente não ganharia uma guerra mais fraca. O ciclo militar nos últimos anos esgotou por um longo período histórico todo seu capital político, porque levou em geral todos esses países ao fundo do poço, não só cultural e político, mas também econômico. Os golpes militares da década de 60 ainda se apoiavam numa conjuntura de expansão econômica internacional. Os golpes militares da década de 70 não tinham uma conjuntura desse tipo, então deixaram não somente um saldo de mortos, presos e fuzilados, mas também um saldo de retrocesso econômico, de desindustrialização. A Argentina, por exemplo, depois do golpe militar nunca mais voltou a ser o país da década de 60, o país que tinha peso econômico, que ainda tinha o PIB superior ao brasileiro. Hoje o PIB argentino não supera o PIB de São Paulo. E o governo militar foi o grande responsável pelas políticas que levaram a Argentina a esse estado de coisas. A Argentina iniciou uma decadência histórica. Atualmente não há nenhuma possibilidade de golpe militar dessa natureza, porque não existem os fatores internos nem externos que possibilitem esse tipo de coisa. Em segundo lugar, os EUA estão apoiando golpes militares em casos extremos e com características muito peculiares, como um eventual golpe militar na Síria ou Líbia. Os EUA não estão em condições de impor sua lei a ferro e fogo como faziam na década de 60. Atualmente enfrentam uma crise econômica e política interna, e uma crise nas relações internacionais. Não pode se dar ao luxo de designar um ditador qualquer e dar ajuda para que imponha sua lei a ferro e fogo. Ou mesmo enviar tropas, como foi com o Vietnã. Podemos dizer que tanto pelas condições internacionais quanto pelas condições políticas internas, golpes militares clássicos daquele tipo são impossíveis. O que pode agora são golpes como o que houve em Honduras, ou seja, um golpe militar com apoio civil para que convoque eleições e através desse mecanismo eleitoral legitimar o presidente. Foi o caso também do Paraguai. E não devemos esquecer que tanto no caso de Honduras como no Paraguai os governos resultantes dessa dinâmica de golpe militar com eleições se alojam no poder com aprovação dos governos de esquerda da América latina, que não aprovaram abertamente os golpes, mas acabaram reconhecendo os governos oriundos das eleições posteriores a esses golpes. Portanto, atualmente, o imperialismo norte-americano mostra uma gama de possibilidades políticas maiores. Eles sabem que o golpe militar não é o único recurso. Os EUA desconfiam quando exércitos de países periféricos ficam muito fortes, porque podem se tornar independentes. Os EUA não gostam de governos reacionários que se tornam muito fortes, eles gostam de poder ter um controle um pouco mais político. Por isso se pode dizer que golpes militares desse tipo, de criação de ditaduras puramente militares, não estão na ordem do dia. O que não significa que os objetivos que esses golpistas defenderam nas décadas de 60 e 70 não continuam vigentes. Esses objetivos se impõem, mas por outros meios. Saudosistas da ditadura militar em geral são tão idiotas quanto os jornalistas. São cretinos, imbecis e têm memória fraca. São manifestações de pessoas que não têm credibilidade.



P - A essência golpista doutrinária das Forças Armadas se mantém. A gente observa, é óbvio que não é institucional, mas a questão da Dilma, que não é comunista... e no entanto pelas redes sociais é muito costumeiro imagens colocando-a como guerrilheira. Isso me parece que vem da formação doutrinária.

R - Enquanto houver exército permanente separado da sociedade com suas próprias normas o golpe militar é sempre presente. E não só na América Latina, mas também nos EUA. A possibilidade de um golpe militar, historicamente falando, continua presente. Na América Latina, na Ásia, África, nos EUA, na Europa. Os militares são uma casta e têm uma peculiaridade: a única casta que tem o direito de ter o monopólio da força pública. Então se tem uma casta com interesses diferenciados e ela tem o monopólio da forca militar é óbvio que em algum momento, seja por uma crise ou motivo que for, a tentação de se apoderar do poder vai aparecer. Não tem solução nesses termos. O que deveria ser destruído é a casta. Mas como fazer isso? Um processo revolucionário deverá pensar em criar outro tipo de instituição armada para cuidar das questões de segurança.



P - É um absurdo que em 31 de março ainda se comemore a revolução. Ou quando o governo lançou a comissão da verdade, que é capenga, os generais não baterem continência...

R - Mesmo na Argentina, onde os titulares foram condenados à prisão, mesmo assim se cultua as Forças Armadas. Onde a pessoa foi oficialmente condenada pelo Estado. Não há nenhuma formação política que resolva essa questão, porque o interesse material de casta continua sendo um fato incontornável. Uma coisa é dizer que não existem condições políticas, outra é dizer que não existem condições históricas. Isso é mentira. Existem todas as condições históricas. Porque enquanto houver exército com interesses separados de casta, sem nenhum tipo de democracia interna, e com monopólio do uso da força, a possibilidade de um golpe militar vai continuar existindo. Basta haver uma situação que propicie.



P - A lei antiterrorismo se analisada é mais grave que a lei de segurança nacional...

R - Pode ser, mas não se iguala à ditadura militar. Essa é uma lei proclamada por um governo civil, e ainda mais grave porque se diz de esquerda. É claro que é reacionário, embora não seja ditadura. O problema é sair das opções políticas a partir do tipo de regime político. O que tem que ver são os interesses de classe por trás. E para sair desse circulo vicioso só entendendo que a sociedade tem uma dinâmica determinada pelos interesses de classe e quem em última instância a história da humanidade continua sendo a história da luta de classes, porque o único caminho para acabar com a possibilidade de golpes militares é acabar com as condições estruturais que o permitem. No mundo em que vivemos, a condição estrutural que permite é o monopólio da força por parte de uma casta, e por outro lado uma situação na qual temos um monopólio mundial da força, porque os EUA tem um poder militar tão distante dos outros países como nunca se viu na história da humanidade. É uma batalha que está determinada pela luta de classes, e não por detalhes como o fato de ter um presidente negro ou secretária de Estado mulher. Isso foi apresentado como um grande avanço social e político. Essa secretária de estado mulher ameaçou jogar uma bomba atômica sobre o Iraque. É preciso uma revolução que acabe com o poder da burguesia e dos seus corpos armados.



Entrevista: Fritz R. Nunes



Foto: Silvana Sá (ADUFRJ)



Edição: Bruna Homrich e Fritz R. Nunes



Assessoria de imprensa da Sedufsm

O samba também combateu a ditadura

Por Fernando Paulino

Eram os anos 70, em plena ditadura militar. As Forças Armadas, desgastadas, tentavam passar para a sociedade uma imagem menos rude. Promoviam, por exemplo, atividades esportivas para comemorar o Dia do Trabalhador, contrapondo-se às manifestações de protesto contra o regime ditatorial.
A Aeronáutica foi além: organizou um festival de música, cujo tema único era Santos Dumont. Zé Katimba e Jorginho, ambos da Imperatriz Leopoldinense, inscreveram um samba que falava de liberdade. “O público delirava. Ganhamos nota 10. Mas, aí os milicos, bastante contrariados, disseram que ainda tinham de ouvir um outro corpo de jurados formado só por militares. Aí, nos roubaram o primeiro lugar. A música só pôde ser gravada anos depois. Mesmo assim, queriam mudar a letra, mas o Katimba não aceitou”, lembra bem Jorginho.
De outra vez, Katimba e Jorginho foram proibidos de cantar no Teatro Teresa Raquel, numa roda de samba que reunia estudantes, intelectuais de esquerda e sambistas simpáticos ao movimento popular de resistência ao golpe de 1964. Entre outros versos, a letra falava: “Ontem, senzala / Hoje, cortiço / Ontem, chibata / Hoje, fuzil / Ontem, quilombo / Hoje, sapê / Tanta injustiça que não tem razão de ser / Tanta injustiça que tentaram esconder”.
A esquerda, de certa maneira, não tinha consenso sobre a melhor forma de atuação política para combater a ditadura: luta armada ou criação de bases populares. O Partidão optou pela inserção nas comunidades, apostando na mobilização política popular.
“Comecei minha militância na Leopoldina pelo Partidão quando tinha 16 anos de idade. Eu era da Ala dos Estudantes da Imperatriz. Desfilei pela primeira vez em 65. Alguns diretores da escola não nos viam com bons olhos. Na verdade, desconfiavam politicamente da gente. É como se dissessem: ‘Esses garotos estão com outras intenções!”, conta o hoje médico Jorge Luiz Ramos Teixeira, o Jorginho, sócio-proprietário número 3 da Imperatriz. 
“O presidente da época era o Nonoca. A gente estava na campanha eleitoral do Lisâneas Maciel, que era o nosso candidato a deputado federal pelo antigo MDB. Certa vez, nós o levamos para um samba na quadra. Ele era convidado da Ala dos Estudantes, quer dizer, um convidado da escola, mas Nonoca não quis saber e recusou-se a liberar uma mesa para o Lisâneas. Aí o Katimba armou uma mesa pra gente.” Katimba, com prestígio na escola e essencialmente catimbeiro, resolveu bancar os estudantes, viabilizando o funcionamento da ala. Acertou, então, que os meninos se reuniriam num espaço que servia de depósito das peças da bateria – local ideal para quem estava na clandestinidade política.
“Estávamos vivendo um momento altamente tenso na política brasileira. Muitos companheiros caíram, foram torturados e mortos; outros tiveram que entrar na clandestinidade. Nós estávamos do lado de fora dos porões da ditadura fazendo o nosso trabalho de resistência e de convencimento contra o regime. A ala era ligada ao PCB e recebia dirigentes clandestinos nas noites de samba, sem chamar a atenção da polícia”, revela Jorginho.
Com a decretação do Ato Institucional nº 5 – o AI-5, de 13 de dezembro de 1968 –, mais da metade da Ala dos Estudantes entrou para a corrente política DG-PCB, um grupo que colaborava com as ações armadas. “Uma parte da ala foi presa, outra caiu na clandestinidade e tinha ainda um outro grupo que continuou na Imperatriz como sambista e comunista”, lembra Jorginho. “No trabalho nas comunidades, o Katimba ajudava na distribuição do jornal do Partido, a Voz Operária. Certa ocasião, as portas do prédio onde eu morava e do prédio onde Katimba morava amanheceram pintadas de amarelo com a inscrição ‘eles não voltarão’, numa referência à volta dos companheiros de esquerda que haviam se afastado da área.
Logo após a Anistia, decretada em 1979, surgiu o bloco Sai na Moita, que abrigava vários anistiados políticos. Ironia do destino: quem também saía nesse bloco era o Nonoca, aquele presidente da Imperatriz que tentou barrar a garotada da Ala dos Estudantes. Literalmente, tudo acabou em samba.

*Quero aqui parabenizar Zé Katimba, Jorginho e vários outros sambistas que, ao longo dos tempos, colocam a sua arte na luta por uma vida melhor. Ditadura nunca mais!

Fernando Paulino é jornalista

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Planos da CIA avançaram muito na Venezuela", diz ex-agente

Fonte: operamundi

Raúl Capote é cubano. Mas não um qualquer. Em sua juventude, foi cooptado pela Agência Central de Inteligência (CIA, por sua sigla em inglês) dos Estados Unidos. Ofereceram a ele uma quantidade infinita de dinheiro para conspirar em Cuba. Mas havia um detalhe inesperado pelos Estados Unidos. Capote, na verdade, trabalhava para a segurança nacional cubana. Desde então, cumpriu funções como agente duplo. Conheça a sua história, por meio dessa entrevista exclusiva concedida à Chávez Vive, em Havana.

Como foi seu processo de cooptação?
Começou como um processo de muitos anos, de vários anos de preparo e de cooptação. Eu era líder de um movimento juvenil em Cuba que, naquele momento, deu origem a uma organização, a Asociación Cultural de Hermanos Saiz [Associação Cultural de Irmãos Saiz, em tradução livre], uma associação de jovens criadores, jovens pintores, escritores, artistas. Eu trabalhava em uma cidade do sul de Cuba, centro-sul de Cuba, Cienfuegos, que tinha caraterísticas que, para o inimigo, se tornaram muito interessantes, porque era uma cidade onde estava sendo construído um polo industrial importante naquele momento. Estava sendo construída uma usina elétrica, a única que seria construída em Cuba, e havia muita gente jovem trabalhando na obra. Portanto, era uma cidade que, além disso, tinha muitos jovens engenheiros graduados na União Soviética. Estamos falando dos últimos anos da década de oitenta, durante todo aquele processo da Perestroika. E muitos engenheiros cubanos que chegavam a Cuba nessa época, graduados lá, eram considerados pessoas que chegavam com essa ideia da Perestroika. Portanto, era um território interessante, onde havia muita gente jovem. E o fato de que eu era um líder juvenil de uma organização cultural, que movimentava um importante setor dos engenheiros que estavam interessados pelas artes, interessou os norte-americanos, que começaram a frequentar as nossas reuniões. Nunca se identificavam como inimigos, nem como oficiais da CIA.

Eram vários, ou sempre uma mesma pessoa?
Vários. Não se apresentavam nunca como oficiais da CIA, nem gente que estivesse querendo causar prejuízo.

Quem se supunham que eram?
Apresentavam-se como pessoas que vinham nos ajudar, em nosso projeto, e que tinham a possibilidade de o financiar. Que tinham a possibilidade de o tornar realidade. A proposta, como tal, parecia interessante porque, enfim, um projeto no mundo da literatura requer que você conheça uma editora, que tenha relacionamentos editoriais. É um mercado muito complexo. E vinham em nome de editoras. O que acontecia é que, durante o processo de contato conosco, ficava bastante evidente o que realmente queriam. Porque, uma vez que faziam o contato, que começavam a frequentar as nossas reuniões, que começavam a prometer o financiamento, vinham, então, as condições para sermos financiados.

Que condições exigiam?
Diziam-nos: “Nós temos a possibilidade de pôr o mercado à disposição de vocês, de fazê-los chegar ao mercado do livro ou das artes plásticas ou do cinema ou do que quer que seja, mas nós precisamos da verdade, porque o que se vende no mercado é a imagem de Cuba. A imagem de Cuba tem que ser uma imagem realista, das dificuldades, do que acontece no país”. Queriam viciar a realidade de Cuba. O que estavam pedindo é que você fizesse uma crítica à revolução, baseada nas linhas de propaganda contra Cuba que eles administravam.

Quão alto pode ser o orçamento desta gente?
Eles vinham com uma quantidade de dinheiro infinita por causa da fonte do dinheiro, [que], claro, nós com o tempo conseguimos saber de onde vinha. Por exemplo, a USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, por sua sigla em inglês] era a patrocinadora maior, a contratadora maior de todo esse orçamento, que era canalizado por meio das ONGs, que muitas vezes eram inventadas para Cuba. Eram ONGs que não existiam, que foram criadas unicamente para esse tipo de trabalho em Cuba, e estamos falando de milhares e milhares de dólares. Eles não trabalhavam com orçamentos reduzidos. Por exemplo, em um determinado momento me ofereceram dez mil dólares somente para incluir elementos da propaganda contra Cuba no romance que eu estava escrevendo.

De que ano estamos falando?
Estamos falando de 1988, 89...

Quantas pessoas podem ter sido contatadas por esta gente, ou cooptadas?
Realmente não durou muito o sucesso da empreitada, porque em Cuba havia toda uma cultura de confrontar esse tipo de coisa, e as pessoas tinham claro que podia existir algo por trás dessa história de quererem nos ajudar. Não era novo na história do país, e, portanto, era muito difícil chegar aonde nós estávamos. Em um momento determinado, lá por 92, nós fizemos uma reunião, todos os membros da organização, e decidimos expulsá-los. Impedir que assistissem qualquer das nossas reuniões. Essa gente, que já estava chegando com propostas concretas, e condicionando, além disso, a ajuda econômica que nos estavam dando. Mas acontece que no momento que nós os recusamos, os expulsamos da sede da associação, então, começaram  a particularizar. Começaram a me visitar, em particular, e a alguns outros colegas, gente jovem. Com alguns tiveram sucesso, ou seja, conseguiram, inclusive, tirar alguns deles do país.

Que perfil eles buscavam, mais ou menos, se é que pode ser especificado um perfil?
Eles queriam, sobretudo nessa época, apresentar Cuba como um país que estava [mergulhado] no caos. Que o socialismo em Cuba não tinha conseguido satisfazer as necessidades da população, e que Cuba era um país que o socialismo tinha levado à pobreza absoluta e que, como modelo, não servia. Era a chave do que se perseguia, sobretudo naquele momento.

Por quanto tempo você foi agente da CIA?
Estivemos nessa história inicial até 94. Porque em 94 eu vim para Havana, voltei à capital e aqui, na capital, comecei a trabalhar no Sindicato dos Trabalhadores da Cultura, um sindicato que representa os trabalhadores da cultura na capital, e me tornei ainda mais interessante para eles, porque passei de dirigir, de ser líder de uma organização juvenil que tinham 4.000 membros, e diretor de uma organização sindical que tinha 40.000 filiados. Ou seja, uma organização sindical com 40.000 filiados, somente na cidade de Havana. E, então, a coisa ficou bem mais interessante. Continuaram os contatos. Nessa época apareceu uma professora de uma nova universidade que veio com a missão de promover a produção da minha obra literária, de se transformar em minha representante, de organizar eventos.

Pode dar o nome?
Não, porque realmente usavam pseudônimos. Nunca usavam os nomes reais. E esse tipo de trabalho, de me promover como escritor, era no que eles estavam muito interessados, porque queriam me transformar em uma personalidade dentro desse mundo. Assim, me comprometeriam com eles de maneira indireta. E aí, em 2004, chegou a Havana uma pessoa que é bem conhecida na Venezuela, a Kelly Keiderling. Kelly veio a Havana trabalhar como chefe do Escritório de Imprensa e Cultura. Prepararam uma reunião, um coquetel, e nesse coquetel tive um encontro com doze servidores públicos norte-americanos, norte-americanos e europeus. Não somente eram norte-americanos. Eram todos pessoas que tinham experiência, alguns que tinham experiência, inclusive, dentro da própria União Soviética, outros tinham participado de treinamentos na Iugoslávia, na Revolução das Cores, e tinham muito interesse em me conhecer. Kelly se transformou em uma pessoa muito próxima. Começou a me a preparar, a me a instruir. Comecei a receber dela um treinamento muito sólido: a criação de grupos alternativos, a criação de grupos independentes, a organização e formação de líderes juvenis, sobretudo, em projetos de cultura, mas que sempre fossem alternativos, que não participassem do trabalho das instituições culturais. Isso foi em 2004-2005. Kelly saiu praticamente de cena em 2005-2006. E eu comecei a trabalhar, ela me apresentou, me colocou em contato direto, com oficiais da CIA. Supostamente, eu já estava comprometido com eles, estava pronto para a próxima missão, e me puseram em contato com Renee Greenwald, um oficial da CIA que começou a trabalhar comigo de maneira direta, e com um senhor que se chamava Mark Waterhein, que era, nesse momento, o chefe do Projeto Cuba, da Fundação Pan-americana para o Desenvolvimento.

Este senhor Mark, além de dirigir o Projeto Cuba, tinha um vínculo direto com Cuba, na questão do financiamento do projeto contra a Revolução, além de estar envolvido em tarefas contra a Venezuela. Ou seja, era um homem que [...]; muitos de sua equipe, dos servidores públicos desse famoso projeto, também trabalhavam contra a Venezuela nessa época. Estavam estreitamente vinculados. Às vezes, era muito difícil diferenciar quem trabalhava com Cuba e quem não, porque muitas vezes se intercalavam. Por exemplo, havia venezuelanos que vinham trabalhar comigo, que trabalhavam em Washington, que estavam subordinados à Fundação Pan-americana e à CIA, e vinham a Cuba também para me treinar, e trazer suprimentos. Daí nasce a ideia de criar uma fundação, um projeto que se chamou Gênesis.

O Gênesis é talvez a matriz, como ideia, de muitas das coisas que acontecem no mundo no dia de hoje, nesse momento, porque o Gênesis é um projeto dirigido aos jovens universitários cubanos. Estavam fazendo algo similar na Venezuela. Por que, o que acontece? A ideia era transformar as universidades — universidades que sempre foram revolucionárias, que tinham produzido revolucionários, de onde saíram muitos dos revolucionários de ambos os países —, em universidades que fossem fábricas de reacionários. Então, como você pode fazer isso? Formando líderes. O que começaram a fazer na Venezuela? Enviavam estudantes para a Iugoslávia, financiados pelo Instituto Republicano Internacional (IRI), que era financiado pela USAID e pelo Albert Einstein Institute, e os enviavam, em grupos de dez, com seu professor.

Sabe os nomes dos venezuelanos?
Não, estamos falando que enviaram centenas. Eu falava com o professor, e olhava um grupo e depois outro. Porque estavam trabalhando no longo prazo. Era o mesmo plano contra Cuba. O Gênesis promovia, dentro da universidade, um plano de bolsas de formação de líderes para estudantes cubanos e professores cubanos. O plano era muito parecido. Inclusive, em 2003, eles prepararam aqui, em Havana, um curso na Seção de Interesses dos Estados Unidos que se chamava Derrubando um Líder, derrubando um ditador, que está baseado na experiência de [do movimento] Otpor para tirar Milosevic do poder. E é a ideia, dentro da universidade cubana, estavam trabalhando no longo prazo, porque todos esses projetos têm sempre um prazo longo para que tenham resultado. Por isso, também começaram cedo na Venezuela. Eu acho, inclusive, não tenho provas, mas acho que na Venezuela começaram antes do governo de Chávez, porque o plano de transformar as universidades latino-americanas, que sempre foram fontes dos processos revolucionários, em universidades reacionárias, para reverter a situação e criar uma nova direita, é mais antigo que o processo venezuelano.

A CIA só trabalha em Caracas?
Não, trabalha em toda a Venezuela. Mas, naquele momento, o Gênesis tinha um plano de bolsas para formar líderes em Cuba. Propunham aos estudantes uma bolsa em uma grande universidade norte-americana, ou uma grande universidade europeia, para se formarem como líderes, com tudo pago. Cobriam suas despesas, lhes davam bolsas completas. Estamos falando de 2004-2005. Era muito evidente. Então, esses líderes voltariam à universidade em algum momento. Eram estudantes. Terminariam sua graduação. Esses líderes, quando terminassem suas graduações, ocupariam diferentes cargos, diferentes possibilidades, como engenheiros, como licenciados em diferentes setores da sociedade cubana, mas alguns estariam constantemente preparando líderes dentro da universidade. Uma das missões mais importantes dos líderes das universidades era ocupar a liderança das principais organizações juvenis da universidade. No caso de Cuba, estamos falando da União de Jovens Comunistas e da Federação Estudantil Universitária, ou seja, [a ideia] não era criar grupos paralelos nesse momento, mas liderar as organizações que existiam em Cuba. Ao mesmo tempo, formar um grupo de líderes nas estratégias de golpe suave. Ou seja, treinar gente para que, quando o momento fosse oportuno, no momento ideal, pudessem acontecer as famosas revoluções de cores ou guerras não violentas, que você sabe bem que, de não violentas, não têm nada.

Que perfil buscam em um professor, para ser cooptado?
É muito fácil no caso dos professores. Identificam na universidade professores descontentes com a instituição, gente frustrada, porque consideram que a instituição não lhes banca, ou não reconhece seus méritos. Se são idosos, melhor ainda. Não especificam. Escolhem pessoas idosas para que você as selecione. Se ele recebe uma bolsa, ou e, de repente, recebe um convite para participar de um grande congresso internacional de determinada ciência, ele vai estar eternamente agradecido, porque foi você que descobriu seu talento, que nunca tinha sido reconhecido pela universidade. Então, constroem um currículo desse homem que você manda estudar fora, que é da sua universidade e que participa de um grande evento e tem sua obra publicada. Quando [um professor desse tipo] regressava a Cuba, regressava com um tremendo currículo, porque tinha participado de um evento científico de primeiro nível, passado por cursos em grandes universidades, e seu currículo tinha se tornado muito bom, portanto, a influência que ele poderia ter na universidade era maior, porque poderia ser reconhecido como uma personalidade em sua especialidade, embora na prática o homem fosse um ignorante.

E, quão eficientes eram esse tipo de cooptações, esse tipo de missões que eles vinham cumprir?
No caso de Cuba, não deu muito resultado. Primeiro, por uma razão importantíssima: quem estava dirigindo o projeto era eu, e eu realmente não era um agente da CIA, era um agente da Segurança Cubana, portanto, todo o projeto passava por minhas mãos, e esperava-se que eu o executasse, o plano passava sempre pelo trabalho que eu podia fazer, e o que fazíamos era atrapalhá-lo o máximo possível, ao termos conhecimento, de imediato, do que se estava planejando. Mas atente para o fato de que o fim do plano estava calculado para o momento em que desaparecessem as figuras históricas da Revolução. Eles estavam calculando um prazo de cinco ou dez anos para que Fidel desaparecesse da cena política, e desaparecessem de cena Raúl e os líderes históricos do país. Esse era o momento que estavam esperando, quando isso acontecesse, [um movimento] deveria surgir da universidade, com todo o apoio da imprensa internacional e com todo o apoio das ONGs, da USAID, e de toda esta gente que trabalha ao redor do dinheiro norte-americano da CIA, e surgiria uma organização que se apresentasse publicamente como uma alternativa ao que a Revolução estava fazendo. Isso é o que acontecia com a Fundação Gênesis para a Liberdade.

O que é essa Fundação?
A Fundação Gênesis para a Liberdade deveria ter um discurso aparentemente revolucionário porque a ideia era confundir as pessoas. A ideia é que dissessem que eram revolucionários, que o que queriam era fazer mudanças no governo, mas, na prática, na essência do projeto, quando você se perguntava qual era o projeto, o discurso e o projeto eram exatamente os mesmos da direita tradicional, porque as mudanças que eles promoviam eram as mudanças que a direita, fazia tempo, estava promovendo dentro do país. Na prática, quase tiveram a grande oportunidade, segundo o critério deles, em 2006, quando foi dada a notícia na televisão de que Fidel, por razões de doença, deixava de ocupar as responsabilidades que tinha no governo, e eles sempre disseram que a Revolução Cubana, no dia que Fidel morresse, iria cair. Porque a Revolução era Fidel e a Revolução cairia no dia seguinte ao que Fidel não estivesse ali, se morresse ou saísse do governo, e calcularam que aconteceriam confrontos internos, que haveria descontentamento com isso, com aquilo. Cálculos que não sei de onde tiraram, mas acreditavam neles. E, naquele momento, acharam que era hora de começarem a atuar.

Estamos falando de 2006. E qual era o plano?
Contataram-me automaticamente. Nos reunimos com o chefe da representação da CIA, aqui em Havana, e também apareceram diplomatas, e um me disse: “Vamos organizar uma provocação. Vamos organizar um levantamento popular em um bairro central de Havana, que tenha uma pessoa que esteja disposta a liderar, pela democracia, e vamos executar um grupo de provocações, em diferentes locais, de forma que as forças de segurança cubanas se vejam obrigadas a atuar contra essa gente, e depois vamos armar uma grande campanha de imprensa” — e começa a explicar como todo isso ia funcionar. O interessante disso, o que chamava muito a atenção, era como poderia ser possível que um servidor público da Seção de Interesses dos Estados Unidos tivesse o poder de convocar os principais meios de comunicação, e que essa gente o obedecesse com esse servilismo? Era muito chamativo. A ideia era [um disparate]; inclusive eu lhe disse: “Isso que você está me dizendo é um disparate. Este homem que você menciona, — o rapaz que eles tinham escolhido para ser o cabeça do levantamento se chamava Alci Ferrer, um agente jovem, médico — esse rapaz não vai liderar ninguém. Ninguém vai protestar no centro de Havana.”

A data que tinham escolhido era nada menos que o dia do aniversário de Fidel, e me disseram: “Esse [é o] dia!”, e eu disse: “Olha cara, se esse homem, nesse dia, resolver fazer um discurso, ou quiser incitar qualquer coisa no centro de Havana, o povo vai responder forte, inclusive, é possível que o matem. Porque, se ele se põe em um bairro de trabalhadores humildes a fazer essas coisas, os vizinhos...”. E ele me diz, textualmente: “O melhor que pode acontecer é que matem esse homem; se matam esse homem, seria perfeito”, e me explica o que iria acontecer. “Só falta ele provocar. Que saiam para a rua, e que aconteça um enfrentamento ali. Se acontecer isso, a imprensa vai se encarregar de construir o resto”, e completa: “Vamos armar uma grande campanha midiática para demonstrar que em Cuba há caos; que em Cuba há ingovernabilidade; que em Cuba, Raúl é incapaz de sustentar as rédeas do Governo; que a população civil está sendo assassinada, que os estudantes estão sendo reprimidos na rua, assim como o povo na rua, que a polícia está cometendo crimes”. Qualquer semelhança com a Venezuela não é puro acaso. Assim é.

Então, o que deveria acontecer nessas circunstâncias?
Uma vez que estivessem criadas todas as matrizes de opinião, e que todas as matrizes midiáticas tivessem construído essa imagem, que o mundo inteiro tivesse a visão de que em Cuba estava acontecendo um grande desastre, e que estavam matando pessoas; e que tudo estava acabando, minha organização deveria cumprir a tarefa final.

Qual era a tarefa final?
Bom, convocar a imprensa internacional, em minha condição de professor universitário, em minha condição de escritor, em minha condição de líder dessa organização, solicitar publicamente ao governo dos Estados Unidos a intervenção de Cuba para garantir a vida dos civis e para trazer tranquilidade e paz ao povo cubano. Falar ao país em nome do povo cubano. Imagina só!

Esse plano fracassou. Não deu certo, mas, quando você vê, depois, a maneira como se armou a guerra na Líbia, a maneira como foi construída. Mais de 80% da informação que vimos foi construída, fabricada. O mesmo fizeram na Síria, o mesmo na Ucrânia. Tive a oportunidade de conversar com muitos ucranianos, agora que estiveram nas bases. Pessoas que estão a favor de se unirem à Europa. Eu procurei falar com eles esses dias. Buscando saber como foram esses processos. E eles ficaram assombrados com as imagens que o mundo transmitiu. O que aconteceu em Miami , e eles mesmos o dizem: “Nós estávamos protestando aí, mas essas coisas que aparecem na televisão, isso era um grupo, ou seja, tinha setores, locais onde havia grupos de direita, de uma direita muito extrema, onde houve incidentes desse tipo, e onde botaram fogo, mas, a maior parte das manifestações não teve essas caraterísticas”. Ou seja, esta é, uma vez mais, a repetição do esquema, usando todos os meios de comunicação.

O relacionamento entre o da CIA e as embaixadas, nos respetivos países, é direto, então?
Sim, totalmente. Cada embaixada da América Latina, todas as embaixadas norte-americanas têm oficiais da CIA, trabalhando dentro delas, que utilizam a fachada de servidores públicos diplomáticos.

Até onde você sabe, onde há maior presença da CIA na região?
Bom, em um determinado momento, o Equador foi uma potência forte nisso, tinha uma concentração forte e, com certeza, a Venezuela, porque em 2012, quando eu fui à Feira do Livro em Caracas, toda essa gente que trabalhou comigo contra Cuba, todos os oficiais da CIA, inclusive Kelly Keiderling, estavam em Caracas. E eu participei de um programa de televisão, lá na [emissora] Venezuelana de Televisão, no qual falamos sobre esse tema, sendo muito cuidadosos porque estamos falando de dois países que têm relações. Esse não é o caso de Cuba, ou seja, Cuba não tem relacionamentos com os Estados Unidos, é um inimigo declarado. Mas estávamos falando de servidores públicos que tinham relações diplomáticas e era muito embaraçoso fazer isso, sem ter provas concretas que pudessem ser apresentadas. Assim mesmo, a entrevista e a denúncia do que estava acontecendo foram feitas. Kelly Keiderling é uma perita nesse tipo de guerra. Eu não tenho a menor dúvida. Quando se segue o itinerário dela... Os países onde esteve, e quando esteve nesse tipo de conflito.

Ela percorreu uma série de países do mundo, onde ocorreram situações muito semelhantes a que ela se empenhou em realizar na Venezuela. E quando você analisa a Venezuela e o que aconteceu nos últimos dias e a maneira como se atuou, eu penso que na Venezuela foram tremendamente agressivos na manipulação da informação. Tremendamente agressivos. Chegarem a tal ponto que é uma torpeza, porque há imagens que evidentemente nem são na Venezuela. Eu estava vendo uma muito famosa, na qual aparece um soldado com um jornalista, com uma câmera, que são coreanos. Essa é uma imagem da Coréia. São asiáticos. Não se parecem em nada com um venezuelano. Inclusive os uniformes que utilizam. Foram muito agressivos com a imagem que se projetou ao mundo do que acontece na Venezuela. Controlam os meios. A maior parte das pessoas do mundo está vendo a imagem do que eles estão querendo dizer.

Eles controlam a mídia, há algum jornalista, conhecido ou não conhecido, que você tenha visto nos processos de treinamento?
Não.

A CNN, por exemplo?
Não. Tinha um cara que estava muito vinculado, em um dado momento, à mim aqui, que serviu de ligação para que eu conhecesse um oficial da CIA, que era o Antony Golden, que era de Reuters, mas, enfim, era um elemento  independente de Reuters. A CNN tem estado sempre muito vinculada a todas essas coisas. A CNN, desde o período de trabalho [da CIA], e sobretudo nessa última etapa de trabalho, e, especialmente a CNN em espanhol, tem sido uma ferramenta indiscutível do trabalho desta gente, mas, o problema é que é necessário entender uma coisa para poder compreender o que está acontecendo: para poder armar uma campanha destas é necessário entender que, hoje em dia, não existe nenhum tipo de canal de televisão que atue por si só. Aí estão os conglomerados das comunicações, e quem os dirige? Por exemplo, a Time Warner e a Aol, e todas essas grandes companhias da televisão a cabo, de televisão em general, de cinema, enfim, quem é o dono? É a Westinghouse, a General Electric. Os mesmos que te fabricam um avião de combate, a mesma indústria armamentista norte-americana, é a mesma gente que hoje em dia é dona das cadeias de televisão, das produtoras de cinema, dos jornais, das editoras de livros. Então, os mesmos caras que produzem um avião de combate, e que [produzem] um biscoitinho doce que você vai comer à noite, que te apresentam um artista, são os mesmos que dirigem os diários do mundo inteiro. A quem responde essa gente?

Quando você vê o que está acontecendo na Venezuela, e compara com o que tinha planejado em Cuba, a que conclusão pode chegar?
É uma estratégia nova, que foram desenvolvendo com a experiência que tiveram no mundo inteiro, mas vejo, estou convencido, de que só deu certo, quando nesses locais o povo não apoia a revolução. Conseguiram com [Slobodan] Milosevic [ex-presidente iugoslavo] porque Milosevic era um líder na Iugoslávia já com uma imagem muito decadente, por causa das coisas que aconteciam na Iugoslávia. Aconteceu o mesmo na Ucrânia, porque [Viktor]Yanukovych [ex-presidente ucraniano] era um homem que tinha muito pouco apoio popular, e deu resultado em outros locais, a partir do pouco apoio que tinham os governantes, por parte do povo. Onde quer tenha havido um governo legítimo, um governo sólido, e gente disposta a defender a revolução, o plano fracassou.

E, para que fase passamos quando esse plano falha?
Vão continuar tentando, eles vão continuar [se] aperfeiçoando. Nós somos o inimigo. Ou seja, Venezuela, Cuba, tudo o que se está fazendo na América Latina como uma alternativa. Nós somos os dissidentes do mundo. Nós vivemos em um mundo onde o capitalismo domina. Onde domina essa nova maneira de ser do capitalismo, que já nem sequer se pode chamar de imperialista, é algo novo, algo que vai bem além do que os estudiosos do marxismo escreveram na história, anos atrás. É algo novo, inovador. É um poder praticamente global das grandes transnacionais, desses megalopólios que criaram. Então, nós somos o inimigo. Nós estamos apresentando um projeto alternativo. A solução que o mundo nos propõe não é essa. Nós sabemos como fazer, e Cuba, Venezuela, os países da Alba [Aliança Bolivariana para as Américas], demonstraram que pode ser feito, que não é nada mais, [que dure] um ou dois dias. A Revolução Cubana tem 55 anos de existência. Está validada por 55 anos de existência, e, com vontade política, conseguiu fazer coisas que o governo norte-americano, nem com todo o dinheiro do mundo, conseguiu. Então isso é um mau exemplo.

Eu dizia a meus estudantes, vocês imaginam se os “indignados ” na Espanha, se os milhares e milhões de operários que na Espanha não têm trabalho, se os gregos, se toda essa gente no mundo inteiro, soubesse o que nós estamos fazendo? Você imagina se as pessoas soubessem quem é Chávez? Ou quem é Fidel? Ou as coisas que estamos fazendo aqui? E as coisas que estamos fazendo com tão poucos recursos, só com a vontade de fazer a revolução, e repartir a riqueza? O que aconteceria com o capitalismo? Quanto duraria o capitalismo, que tem de gastar biliões de dólares, todo os dias, para construir sua imagem e enganar as pessoas? O que aconteceria se as pessoas soubessem quem somos realmente? Que coisa é realmente a Revolução Cubana, e que coisa é, realmente, a Revolução Venezuelana? Porque, se você fala com um espanhol e pergunta a ele sobre Chávez, ele te dá uma opinião péssima de Chávez porque é o que construíram em sua mente; e você encontra um desempregado que te diz que Chávez é um cara terrível porque a mídia o convenceu que é assim, mas, se essa gente soubesse do que se trata realmente [...] Então, eles não podem permitir que inimigos tão formidáveis, como nós, estejamos ali, à porta.

Do ponto de vista da soberania nacional de nossos povos, como pode ser freado o trabalho da CIA? Já falávamos da consciência do povo, que é fundamental neste tipo de ações, mas, concretamente, como se pode prever o trabalho da CIA? O que pode ser feito? Que recomendações faria?
Penso que há uma coisa que Chávez disse, e que Fidel também disse sempre, que é a chave para derrotar o império, que é a unidade. Não é uma palavra de ordem, é uma realidade. É a única forma que você tem de derrotar um projeto como esse. Projeto surgido dos Serviços Especiais, e surgido do capitalismo. Só é possível com a unidade popular.

Estaríamos falando de uma unidade cívico-militar?
Sim, a unidade em todos os sentidos. A unidade baseada na diversidade, nos povos, mas, a unidade como nação, a unidade como projeto. Onde quer que as pessoas se dividam, há outra realidade.

Onde é necessário se concentrar? Em que área é necessário concentrar a força, para se defender deste tipo de ações, deste tipo de ataques?
O exército para derrotar isso é o povo. Eu acho que a experiência cubana o ensinou muito bem. Há experiências no mundo que mostram muito claramente. O que aconteceu no mundo, quando não foi o povo o protagonista da defesa da revolução? E quando o povo foi protagonista, o que aconteceu? E é o caso de Cuba. Nós conseguimos derrotar milhões de vezes a CIA e o Império porque o povo foi o protagonista.

A CIA utiliza o banco de dados das redes sociais, e esse tipo de coisas, para definir seus planos?
São os donos. São os donos disso. Bom, aí estão as denúncias de [Edward] Snowden e tudo o que saiu no Wikileaks, e todas essas coisas que, não é que seja um segredo para ninguém, porque se suspeitava, mas está demonstrado. Está demonstrado que os servidores, a internet, são deles. Todos os servidores do mundo, afinal, morrem nos servidores dos norte-americanos. São a mãe da internet e de todas as redes e os serviços estão controlados por eles. Eles têm acesso a toda informação. E não põem limites na hora de gravar. O Facebook é um banco de dados extraordinário. As pessoas põem tudo no Facebook. Quem são os amigos, que gostos têm, que cinema veem, o que consomem. E essa é uma fonte de informação em primeiríssima mão.

Tem estado em contato com Kelly Keiderling, após o que passou na Venezuela?
Não, não tive contato com ela. Não sei qual foi seu destino final, depois do que aconteceu (ela foi expulsa da Venezuela por se reunir com terroristas e financiá-los).

Com a experiência que ela tem, até que ponto pode ter penetrado na Venezuela, e nas universidades venezuelanas?
Eu tenho certeza de que chegou bastante longe. É uma agente muito inteligente, muito bem preparada, muito capaz, e muito convencida do que está fazendo. A Kelly é uma pessoa convencida do trabalho que está realizando. Convencida da justeza do seu ponto de vista, do que está fazendo. Porque é uma representante incondicional do capitalismo. Porque provém da elite do capitalismo. É orgânica da ação que está realizando. Não há nenhum tipo de contradição. E, baseado na experiência de seu trabalho, de sua capacidade, tenho a segurança de que ela conseguiu chegar bem longe, conseguiu chegar bem longe e deu continuidade a um trabalho que não é de agora, é um trabalho que vem sendo feito há muito tempo, de reverter o processo nas universidades venezuelanas. Mas até onde podem chegar, no longo prazo, é o processo bolivariano que vai mostrar, na medida em que as pessoas tenham consciência do que pode acontecer. Se essa direita fascista se tornar incontrolável, conseguirá chegar ao poder outra vez.

Qualquer pessoa que tenha contatos, que tenha como chegar ao povo, qualquer ativista de um movimento, pode ser cooptado pela CIA?
Vão encontrá-lo, vão tentar fazê-lo. Se for jovem e líder, vão tentar cooptá-lo para seus interesses. Nós temos de formar os nossos líderes. Nós não podemos deixar isso à espontaneidade, nem podemos deixar isso ao inimigo. Então, se deixamos ao inimigo, são espaços que o inimigo ocupa. Um projeto alternativo que nós deixamos sem atender, que não percebemos a necessidade de nos aproximarmos dele, é um projeto do que o inimigo vai tentar, por todos os meios, tomar para si. Usando a enorme quantidade de dinheiro que tem para isso, que não tem limite, quanto a recursos que pode utilizar, porque está em jogo o futuro e, sobretudo, os jovens são a chave.

O bom é que os jovens são o presente da América Latina. A revolução latino-americana que está aqui, que está em todos os lados, é dos jovens. Se não fosse, bem, nunca teria resultado, e se você conseguisse que esses jovens pensassem diferente, se você conseguisse que esses jovens achassem que este capitalismo selvagem é a solução a todos seus problemas, então, não há revolução para a América latina. Simplesmente.

terça-feira, 25 de março de 2014

Paulo Lins: A democracia no Brasil só é boa para a classe média branca

Fonte: brasildefato

Prefeitura de Votuporanga
Autor de Cidade de Deus e Desde que o Samba é Samba assume, sem medo, que a saída da ditadura não mudou a situação do negro, fala da inserção dos  afro-brasileiros na sociedade pela cultura e critica a polícia brasileira. “90% é corrupta, tudo bandido”
25/02/2014
por Igor Carvalho,
da Revista Fórum
Paulo Lins correu o mundo com seu filho mais ilustre, o livro Cidade de Deus, de 1997. Por conta do filme homônimo, se tornou famoso internacionalmente, fazendo cumprir a profecia de João Moreira Salles, que via em sua obra um paradigma da cultura brasileira.
Com o passar do tempo, Lins reforçou sua preocupação com a sua ancestralidade africana. Recentemente, lançou Desde que o Samba é Samba, que congraça o encontro do samba e da umbanda na formação da identidade cultural do brasileiro. O escritor, que se tornou referência no debate sobre questões raciais e sociais no Brasil, tem um riso fácil e sempre disposto, que só encontra adversário à altura quando o assunto é violência policial e o genocídio da população negra e pobre no Brasil.
“A democracia não foi boa para o negro, vivemos em um Estado policial, é guerra o tempo todo. Você falar que continuamos em uma ditadura é politicamente incorreto, mas é verdade, a democracia no Brasil só é boa para a classe média branca”, afirma o escritor, que acaba de lançar Era uma vez…Eu.

Fórum – Em Desde que o samba é samba, você fala da inserção do negro na sociedade por meio da arte e da religião. Estes ainda são os meios de o negro ascender socialmente, junto com o futebol?
Paulo Lins – O futebol é problema seu [risos]. O futebol é esporte, não é a cultura de um povo. A cultura de um povo é você ter as histórias e as crenças que seu bisavô tinha. A arte é a mãe da sociedade, de qualquer sociedade, e quem fala isso é o Octávio Paz, não sou eu. As duas coisas insubstituíveis na vida são a arte e os deuses. Se a gente resolver jogar uma bomba naquela igreja católica ali, vamos arrumar uma confusão dos diabos. Mas, por outro lado, o negro ainda é atacado por sua religião, no Brasil. E a religião é algo que nos fortalece, por essa ligação com os nossos antepassados.
Vamos voltar lá atrás, em uma época que os negros eram arrancados de casa e trazidos para o Brasil, na condição de escravos. Estávamos em guerra, a escravidão foi uma guerra. Nesse cenário, se o cara consegue minar sua cultura, ele domina você. Os franceses conseguiram isso no Caribe. Em Guadalupe, os negros ficaram sem seus deuses, não tem Oxalá, não tem batuque, não tem a cultura africana e estão dominados, são discriminados e considerados cidadãos de segunda classe. O Paz fala que tudo é substituível, menos a arte, a casa substituiu a oca, o carro substituiu a carroça, a metralhadora substituiu o tacape, mas a Ilíadanão substituiu a Odisseia, o Grande Sertão Veredas não substituiu Macunaíma, assim como Deus não substituiu Oxalá e nem Ogum a São Jorge. A cultura como sentimento de um povo, é disso que eu quero falar, um povo que tem a cumplicidade de acreditar no mesmo Deus.
Fórum – O samba é, então, o elemento que colabora para a afirmação da identidade do negro?
Lins – O samba, o maracatu, a capoeira e outros elementos que conseguimos inserir aqui, que queriam nos tirar, mas resistimos. As escolas de samba são a maior festa e o que traz mais turistas, a umbanda está no mundo todo. Olha o samba, que é a festa de uma nação, de um povo, não tem samba na Argentina, tem tangos lindos, mas samba é daqui, isso é o nosso sentimento. O samba de toda uma cultura de uma raça… Ah, hoje não se fala mais raça, ficou fora de uso, vai entender.
Olha o poder do samba. A política sempre negociou com os líderes, ela tem que negociar com os líderes. Quando o negro começa a votar, os políticos descobrem que precisam negociar com os líderes negros, que são sambistas e mães-de-santo. A força política do voto negro se dá por meio do samba e da religião. Tem uma lei de um deputado chamado Nicanor Nascimento, em 1935, acho, permitindo que o Candomblé funcione por conta da força política das mães-de-santo.
Fórum – Por que tanta gente se incomodou quando você falou da homossexualidade do Ismael Silva, no livro
Lins – Porque são homofóbicos.
Fórum – Você falou da perseguição ao samba. É possível encontrar similaridade com o que é feito, hoje, com o funk e o rap?
 Lins – A discriminação é a mesma. O Brasil é um país racista e a aglomeração de negros nunca é bem vinda por aqui. Veja bem, a favela é o resultado do encontro desses negros, favelados, tem os bandidos, ali estão as pessoas mais sacrificadas da sociedade e o resultado não poderia ser diferente do que uma música que agride.
Fórum – Você, Mano Brown, Sérgio Vaz, Ferréz, serão sempre procurados para opinar sobre assuntos que vão para além da arte que produzem, como violência, racismo, polícia… Isso o incomoda?
 Lins – Não me incomoda. Tenho que falar disso, quero falar disso, se nós não falarmos, quem vai falar? O Ferréz tem problema com isso, não gosta de falar somente desse assunto. Aliás, pode me perguntar, está demorando, eu quero responder [risos].
Fórum – Pergunto, então. Onde está a luta dos movimentos negros, hoje?
Lins – Vivemos um tempo em que há uma inserção social do negro no teatro e no cinema, sem falar necessariamente de violência. Nossas causas estão nos livros, na internet, nos jornais, então isso mostra que os negros seguem lutando. Vivemos, após a democracia, um compasso de espera, porque a democracia seria uma panaceia, um remédio para todos os males. Quando o [José] Sarney entrou [em 1985, assumiu a presidência da República], a esquerda e os movimentos tiveram que parar e se pensar. Essa democracia teria que nos trazer uma vida social e política equilibrada, mas não deu certo, não mudou nada. Mudou a liberdade de expressão, isso sim. Mas isso é bom pra classe média, porque pra gente continua a mesma coisa, os negros e pobres passando fome e morrendo na mão da polícia, percebe que é a mesma coisa? Mudou o que a democracia? ‘Ah, vivemos em um Estado livre’. Que nada, só quem pode qualquer coisa nesse país é rico, é branco. A democracia não foi boa para o negro, vivemos em um Estado policial, é guerra o tempo todo. Você falar que continuamos em uma ditadura é politicamente incorreto, mas é verdade, a democracia no Brasil só é boa para a classe média branca.
Fórum  Você está falando do óbvio descaso com a população pobre e negra no Brasil. Qual sua opinião sobre programas sociais como o Bolsa Família ou o Mais Médicos? 
Lins  Existe uma questão de erradicar a fome. O Lula falou isso. Houve avanços significativos na gestão dele, é inegável, muita gente subiu de classe social e é isso que a esquerda quer. Acho que seria importante termos algo mais unificado democrata, um socialismo, não esse capitalismo que está aí. Vivemos o tempo dessa economia virtual, com fortunas concentradas em bancos. Ninguém está feliz, você pode ter momentos de felicidade, mas a sociedade está triste, está com medo, está pressionada. É manifestação, porrada, a imprensa brigando, grupos querendo ganhar mais, políticos corruptos, vivemos um modelo que não deu certo.
Fórum – E a polícia…
Lins  Aí é guerra. Vivemos em guerra o tempo todo, cara. Nos anos 70, ainda na ditadura, teve a Guerra das Malvinas, o número de mortos nem se compara com os nossos. Morre mais gente nas mãos da polícia do que em guerras pelo mundo. É um genocídio, ninguém mata mais, no Brasil, do que a polícia. O Estado é nosso maior assassino.
Fórum  Estava lendo uma declaração sua, de 2009…
Lins  Isso é uma merda, né? [risos] Tu fala uma coisa, lá em 2009, nem lembra, em outro contexto e é cobrado por ela. Vai dar tudo certo, se eu falei, é isso…
Fórum  Bom, você disse que a violência policial existe, mas que não acredita em um poder paralelo, porque ele está dentro do poder. É isso?
Paulo Lins  Isso mesmo. Eu tinha razão [risos]. Nunca existirá poder paralelo sem corrupção. 90% da polícia é corrupta, tudo bandido. Aí vão me dizer que tem policial honesto… Tem nada, se não são, pecam por serem corporativistas. É muita propina, para tudo, cara. Ninguém fala em tráfico de armas nesse país, como uma arma produzida na Europa entra aqui? Como nossas armas saem para a América do Sul? Então, o crime se alimenta da polícia.
Fórum  Manifestações. O que você pensa sobre os protestos no Brasil?
Lins  Tenho que citar o Mano Brown, tem uma música dele, que não lembro qual agora, em que ele fala que ninguém está feliz. O povo está na rua porque não está feliz. A felicidade é muito complexa, né? Vivemos numa sociedade desequilibrada que está tentando pedir as coisas mais necessárias, como comer bem, ter saúde, educação, é básico. Mas tinha gente pedindo pena de morte e redução da maioridade penal, cara. Não concordo, mas acho que faz parte desse desequilíbrio, não posso questionar uma pessoa que perdeu um parente, um amigo num assalto a mão armada. É muito doído, cara. Eu vivi a dor do [Marcelo] Yuka,  sei o que a família dele passou, e isso é fruto dessa sociedade infeliz. Você não está na Alemanha, onde tem problemas, mas a seguridade social existe.
Fórum  O que é a “neo-favela” de que você fala?
Lins - São, de certa forma, os conjuntos habitacionais que começaram a ser construídos pelos militares. A Cidade de Deus, no Rio, em São Paulo, a Cohab e o Cingapura. É um outro tipo de isolamento, que não funciona, aqueles apartamentos mínimos. Sou a favor de que se urbanize, que se leve asfalto, mas tem que ter estrutura, não qualquer coisa, de qualquer jeito. São esses isolamentos que chamo de “neo-favela.”
Fórum  E a UPP?
Lins  UPP é coisa de playboyzinho, né cara? [risos]. É de uma idiotice sem limites. A UPP, se vermos a ideia original, era interessante, mas como foi aplicada é uma imbecilidade. Já vi o [José Maria] Beltrame [secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro] falando umas baboseiras, que a polícia não pode só ocupar, que tem que levar outros benefícios, mas não tem nada disso. Falta saneamento básico, escola de qualidade, bibliotecas, serviço médico competente, creches. Falta, também, treinamento decente, que humanize o policial, não existe isso. Tô fora do Rio de Janeiro e agradeço, não pelo governo de São Paulo, o governador aqui é um imbecil também. O governador aqui é um imbecil também, pois no dia em que um garoto negro da favela matou outro garoto branco de classe média aqui em Perdizes ele foi na televisão no mesmo dia e disse que isso era por causa da impunidade, que tinha que aumentar a idade penal. Todo mundo fica triste quando ocorre um crime desse, a sociedade toda sofre, pois todo mundo tem família e amigos e, falando isso, ele tira toda responsabilidade de sua gestão e todas que foram do PSDB aqui em São Paulo. O garoto que atirou nasceu no governo deles, é fruto dessas administrações capengas de seu partido no estado. A cidade está toda comovida e ele me vem com essa, é claro que no calor da tristeza as pessoas pensam em até fazer justiça com as próprias mãos. Aumentar a idade penal não vai suprir as deficiências do PSDB com as causas sociais.Sei lá o que acontece. Poxa, se eu me candidato a um cargo público, vou lá para ajudar, esses caras não estão preocupados em resolver nada, ajudar ninguém, só querem poder e dinheiro.
Fórum – Você não vê exceções?
Lins - Nada. Quem governa hoje é marqueteiro, ele quem diz como você vai se comportar, como ganhar mais pontos na pesquisa. Não temos mais estadistas, acabou a era dos estadistas no Brasil, são todos submissos às táticas do marketing.
Fórum  Como vê as gestões de Lula e FHC?
Lins  Era, no momento que ganharam, o melhor que tínhamos. Já pensou, ao invés de Fernando Henrique Cardos, o Antônio Carlos Magalhães? E se ao invés do Lula fosse o Alckmin? Nossa. E olha, no fim, PT e PSDB se parecem muito. Ficam com esse poder fracassado, de fazer acordos absurdos para compor maioria, que está condenado.
Fórum  Vamos falar de Cidade de Deus?
Lins  Vamos. Agora.
Fórum – Quando terminou e leu o livro, você em algum momento achou que poderia ter a dimensão que teve?
Lins – Entreguei o livro na casa de uma editora, que tem uma agência literária, em Ipanema, no Rio. Estava de frente para a praia e saí, mas não sabia para onde ia. Fui parar na casa de uma amiga e parecia que tinha tido um filho, uma moleza absurda, cara. Acreditava, naquela época, que era um livro de consulta, voltado para a academia, que poderia ser usado em História, Antropologia e Sociologia.
Um tempinho depois, o João Moreira Salles foi em casa para gravar minha participação no documentário Notícias de uma guerra particular, e ele olhou para mim e disse: “Cara, você vai ser conhecido no mundo inteiro por causa desse livro”. Eu dei risada. “Esse cara usou droga pesada”, eu pensava [risos]. Roberto Schwarz [crítico literário]  já tinha me falado, mas eu pensei só no mundo acadêmico. Bom, um dia minha editora me liga e disse que o livro ia sair com 6 mil exemplares, mas eram 3, antes. Daí, pulou para 10 mil, 50 mil e perdi o controle.
No carnaval de 1997, Caetano Veloso, Cacá Diegues, Zezé Motta e Hermano Vianna vieram falar comigo no sambódromo, durante as filmagens de “Orfeu da Conceição”, filme de Cacá, que eu ajudei no roteiro, aí eu tremi, fiquei assustado. Comecei a achar que ficaria muito exposto, minha família também não queria isso. Pouco tempo depois, toca meu telefone, era o Eduardo Coutinho. “Paulo, quero ser seu amigo”. Aí eu entendi o que estava acontecendo.
Fórum  Quanto tempo você demorou para escrever?
Lins  Foram dez anos envolvido com o livro. Parei muitas vezes. Todo fim de relacionamento eu parava, arrumava um novo amor e continuava, nasce filho eu paro, enfim, fiquei dez anos.
Fórum  A migração para o cinema se deu em que momento?
Lins  Não foi o Fernando Meirelles quem me procurou, foi o Heitor Dália. Lembro que ele foi em casa no dia em que o Tim Maia morreu, e eu num puta baixa astral, indo para um churrasco na casa de um amigo. Bom, aí vendi, mas não estava muito empolgado com esse negócio de cinema nacional, já estávamos na retomada, mas não me empolgava.
Fórum  Você estava em Cannes, quando o filme passou lá?
Lins  Não, fui para o Oscar, me arrumaram um convite.
Fórum  E aí?
Paulo Lins  Ah, aquelas atrizes lindas, bebida de graça, estava bom, né? Mas eu não peguei ninguém, hein! [risos]
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